Diário da América
Diário da América
A TODOS, UMA
BOA VIAGEM
Paulo Briguet
A aeromoça chega perto do jogador e pergunta se está tudo bem. Ele se ajeita na poltrona e diz:
- Tudo certo.
Resposta automática, frase deslocada. Pensar que alguns minutos atrás havia confessado aos repórteres:
- Eu não tô legal. Não tô feliz.
Um dia antes, em terra, ele havia castigado o travessão com um belo chute de fora da área. Correra com velocidade por todo o gramado. Distribuíra sorrisos e autógrafos. Afinal, é um conhecedor, um ilustrado, um líder nato. Tinha muita coisa para mostrar a esses meninos.
Agora o meia-armador está imóvel, preso ao mesmo lugar por um cinto de segurança. Deixa o time. Vai embora sem festas.
O comandante da aeronave faz o aviso habitual pelo sistema de som interno:
- Atenção, tripulação: preparar para decolagem.
Comandante. O jogador pensa na palavra. A essa hora, o time deve estar treinando, sob as ordens inflexíveis, indiscutíveis e dogmáticas de outro comandante. Decolará?
O avião decola. Lá embaixo, em torno do estádio, centenas de meninos vendem bugigangas e cuidam dos carros; gostariam de ter uma Ferrari e dar ordens.
Taffarel está na poltrona ao seu lado.
- Você por aqui! - espanta-se o meia-armador.
O goleiro vai diretamente ao assunto.
- Vai que é suuuua!. Você acha que eu ficava feliz quando o Galvão dizia isso? E quando era gol? Vai que é suuu... goooooll! Chega!
Raí, passeando pelo corredor, tenta uma saída diplomática:
- A Seleção às vezes é como um amor que não deu certo. Melhor esquecer...
Cafu, com a roupa do treino, põe a mão no ombro do meia. Está ofegante:
- Olha, eu deixei de apoiar o ataque só pra vir aqui falar com você. A braçadeira é o que menos importa para mim... Volta, rapaz. Tem um vôo direto às dez da noite.
Edílson, para desespero da aeromoça, grita do fundo da aeronave:
- Volta nada, rapaz! Vem aqui fazer uma embaixada com a gente!
Pertinho do corintiano, Edmundo, César Maluco e Almir concordam. Fazem gestos de incentivo.
Barbosa, com as dedos tortos, pede licença aos passageiros e abre caminho no corredor. Com certa dificuldade, declara:
- Fez bem, garoto. É pior que uma prisão. Há 49 anos eu me arrependo.
Telê Santana e João Saldanha jogam biriba nas poltronas da frente. Saldanha dá uma piscadela ao armador.
- Achou que eu não viria, hem? Pois tava muito enganado. Te dou o maior apoio. Esse negócio militarista já era. Se hierarquia ganhasse jogo, Agulhas Negras Futebol Clube era campeão todo ano. E o Chile do Pinochet não tinha perdido uma desde 73, pô!
Telê balança a cabeça em sinal de discordância, e finge não perceber a presença de Renato Gaúcho.
Ademir da Guia vai à toalete calado. Garrincha canta o refrão de A Banda e procura o serviço de bordo. Valdir Peres dorme profundamente. Leônidas ensina algum truque a Dunga. Pita faz sinal de positivo, chama Vavá e observa o sol poente pela janela. Zé Sérgio conversa com Raí. Mais adiante, Zico e Pelé se cumprimentam. Biro-Biro, Geraldão e Nunes confessam ter medo de avião. Nelinho tenta provar a Reinaldo que o Mineirão é pouco pra ele. Filipão discute com Saldanha sobre Pinochet.
O meia-armador se vira para o lado e tenta dormir.
Depois de algumas horas, a aeromoça o acorda delicadamente.
- Senhor, já chegamos.
O jogador se recompõe; está aliviado. Caminha pelo avião quase vazio. Passa pela cabine do comandante. Pára.
Wanderley Luxemburgo dá orientações ao co-piloto.





