Paris - O tempo é cruel. Dez anos depois da primeira conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros, não é mais possível seguir os passos dados pelo mais surpreendente tenista brasileiro em Paris. Seu hotel, o Mont Blanc, quase uma humilde pensão no Boulevard Victor e que praticamente se transformou em um ponto turístico, não existe mais. Deu lugar ao Hotel Port de Versalles, ainda um duas estrelas, mas completamente reformulado, com luxos como tevês com tela de LCD nos quartos. E o apartamento número 5 que Guga ocupou é hoje bem amplo, com banheiros de mármore, frigobar, etc.
Com a torcida francesa, Guga ainda recebe carinho e simpatia. O Prix Orange - o Troféu Laranja -, dado sempre ao tenista mais simpático de Roland Garros, recebeu inúmeras indicações pela internet, mesmo com o brasileiro fora da competição desse ano.
Em Roland Garros é claro que Guga ainda merece muito respeito pelo tricampeonato, façanha para poucas na história do torneio. Mas, num mundo recheado de astros, muito se perde pelo caminho. Nelson Monfort, repórter da France Television, que se deliciava e encantava seu público com as entrevistas do brasileiro, hoje guarda poucas lembranças.
Precisou puxar forte pela memória para buscar alguma coisa marcante, curiosa, até conseguir. ''Acho que o fato de certa vez dizer que Paris era como sua casa foi bem interessante'', disse, sem se dar conta que estas impressões já eram referentes ao tricampeonato, conquistado em 2001, quando Guga chegou a desenhar um coração na quadra, com a raquete, após a suada vitória contra o norte-americano Michael Russell, nas oitavas-de-final.
Melhor esteve Stephan Braun, funcionário de Federação Francesa, e que acompanhou de perto os passos do brasileiro. ''Para mim o mais legal foi ver uma batucada em pleno Roland Garros'', disse o festivo Braun.
Nestes dez anos, muito também se perdeu no tênis brasileiro. Em 2007, por exemplo, o País não tem nenhum jogador entre os cem primeiro do ranking e o único representante na chave principal de Roland Garros foi Marcos Daniel, que teve de disputar o qualifying e foi eliminado na primeira rodada sem jogar a partida inteira, por causa de uma contusão.
Guga revelou essa preocupação em um comunicado à imprensa, no dia em que completava 10 anos da primeira conquista - derrotou na final o espanhol Sergi Bruguera (6/3, 6/4 e 6/2). ''É triste. Realmente não foi aproveitado nada em termos de desenvolvimento e estrutura. A parte de crescimento especializado no esporte, com projetos mais profissionais, ficou bem a desejar. O que mudou completamente foi a divulgação do tênis, o número de pessoas jogando e o surgimento de projetos sociais. Faltou um programa qualificado para que pudéssemos ter mais tenistas de ponta.''
Treinando em Florianópolis e sem demonstrar condições de poder voltar a jogar em alto nível, Guga alimenta esperanças de ainda jogar novamente em Roland Garros. Neste ano, tinha um wild card (convite) da organização, mas abriu mão para não queimar sua reputação na casa. ''É claro que eu gostaria de estar jogando em Roland Garros. Mas não posso ficar chateado, pensando nisso todos os dias. Se não fui esse ano é porque quero estar lá jogando, no ano que vem,'' afirmou Guga. ''Roland Garros é o meu torneio favorito. Foi lá que tudo aconteceu para mim.''

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