DESPRESTIGIADO, TORNEIO MOSTRA SITUAÇÃO DA MODALIDADE NO PAÍS - PENÚRIA
Jogo contra a indiferença
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domingo, 21 de setembro de 2014
Fábio Galão <br>Reportagem Local 
O Barec, de Londrina, perdeu por 2 a 1 para o Assaí FC ontem à tarde no Estádio do Café, pela segunda rodada do returno do Campeonato Paranaense de Futebol Feminino. O time londrinense ainda tem chance matemática de ser o campeão da fase e chegar à decisão do Estadual mas para isso depende de um milagre.
Na última rodada, no próximo domingo, no Café, precisa vencer o Foz Cataratas, atual tetracampeão paranaense e um dos times femininos de futebol mais estruturados do País, com um título da Copa do Brasil no currículo e jogadoras convocadas para a seleção brasileira. Para complicar, a vitória precisa ser por goleada, já que o Barec ainda não somou pontos e está com saldo de menos um gol no returno. O Foz tem três pontos e saldo positivo de quatro gols.
O Assaí soma três pontos, mas como não joga mais na competição, não tem mais chances. O Foz já está garantido na final porque venceu o primeiro turno. Caso vença o segundo, será campeão automaticamente. No jogo do primeiro turno entre Foz e Barec, o time da fronteira venceu por 6 a 0.
O degrau entre o trabalho já premiado do Foz e a busca por um lugar ao sol das jogadoras do Barec e do Assaí evidencia a dificuldade que o futebol feminino tem para se estabelecer no Brasil. O País que se orgulha de ter Marta, eleita a melhor jogadora do mundo cinco vezes, não consegue ter uma estrutura forte na modalidade. Prova é o próprio Campeonato Paranaense, disputado por apenas três times o quarto, o Foz do Iguaçu Futebol Clube, desistiu antes do torneio começar.
O Barec, abreviação de Bandeirantes Recreação Clube, existe desde 2002. Tem times de base e amadores no masculino, além do futsal. No feminino, as jogadoras mais novas se mesclam a atletas mais experientes as idades vão de 16 a 32 anos, e a média é 25. O Barec disputou o Paranaense feminino em 2011, mas ficou ausente nos dois anos seguintes por falta de recursos. Voltou este ano por ter verbas do Fundo Especial de Incentivo a Projetos Esportivos (Feipe) da Fundação de Esportes de Londrina (FEL) e de patrocínios.
As atletas não recebem salários, apenas ajuda de custo. Segundo Cláudio Fontes, coordenador do Barec, as jogadoras locais vieram da equipe que venceu o campeonato escolar do Paraná pelo Colégio Estadual Tsuru Oguido. As atletas de fora jogam em outras equipes e não têm tempo de treinar com as companheiras elas se apresentam para os jogos na véspera. "O futebol feminino tem dificuldade pelo preconceito que existe. Às vezes, chega na idade de a menina tentar se profissionalizar, e o pai não apoia", lamenta Fontes.
Anataly Liberato dos Santos, de 26 anos, é uma das "estrangeiras" do Barec. Ela mora em Mongaguá (SP), onde trabalha em uma distribuidora de água. "O Paranaense é um torneio curto, e por isso consigo viajar para vir jogar", explica. "Não tem como viver de futebol no Brasil. Hoje, no futebol feminino brasileiro, só o Foz, o São José e o Centro Olímpico têm mais estrutura."
O Assaí é mantido por Renata Costa, da seleção brasileira, que paga as despesas e dá ajuda de custo às jogadoras, todas amadoras. A prefeitura fornece a alimentação do elenco. Segundo o técnico Pedro Henrique da Costa, irmão de Renata, as meninas têm entre 16 e 18 anos e algumas já integram seleções de base. Duas são bolsistas do programa Talento Olímpico do Paraná (TOP 2016), da Secretaria de Estado do Esporte e do Turismo.
"O futebol feminino não cresce porque faltam empresas querendo investir. O Campeonato Paranaense só tem três equipes. Tinham que regionalizar o Estadual, assim aumentava o número de times. E acho que alguma empresa estatal poderia patrocinar o campeonato", afirma o treinador.
Pouco mais de 20 pessoas assistiram à partida de ontem no Café. Uma delas foi a diarista Lúcia Pereira, que foi ver o desempenho da sobrinha Mikely, zagueira do Barec. "Quando ela vai me visitar no Ouro Verde, onde eu moro, os meninos da rua querem que ela jogue com eles. Eles falam: Quero a Cabelo (apelido de Mikely) no meu time, ela é muito boa", relata Lúcia.
Cláudio Fontes tem esperança de que, por ser contra um dos principais times de futebol feminino do Brasil, o próximo jogo do Barec atraia mais público. "As próprias jogadoras vão fazer a venda de ingressos no Calçadão, no sábado de manhã", avisa.


