O Barec, de Londrina, perdeu por 2 a 1 para o Assaí FC ontem à tarde no Estádio do Café, pela segunda rodada do returno do Campeonato Paranaense de Futebol Feminino. O time londrinense ainda tem chance matemática de ser o campeão da fase e chegar à decisão do Estadual – mas para isso depende de um milagre.
Na última rodada, no próximo domingo, no Café, precisa vencer o Foz Cataratas, atual tetracampeão paranaense e um dos times femininos de futebol mais estruturados do País, com um título da Copa do Brasil no currículo e jogadoras convocadas para a seleção brasileira. Para complicar, a vitória precisa ser por goleada, já que o Barec ainda não somou pontos e está com saldo de menos um gol no returno. O Foz tem três pontos e saldo positivo de quatro gols.
O Assaí soma três pontos, mas como não joga mais na competição, não tem mais chances. O Foz já está garantido na final porque venceu o primeiro turno. Caso vença o segundo, será campeão automaticamente. No jogo do primeiro turno entre Foz e Barec, o time da fronteira venceu por 6 a 0.
O degrau entre o trabalho já premiado do Foz e a busca por um lugar ao sol das jogadoras do Barec e do Assaí evidencia a dificuldade que o futebol feminino tem para se estabelecer no Brasil. O País que se orgulha de ter Marta, eleita a melhor jogadora do mundo cinco vezes, não consegue ter uma estrutura forte na modalidade. Prova é o próprio Campeonato Paranaense, disputado por apenas três times – o quarto, o Foz do Iguaçu Futebol Clube, desistiu antes do torneio começar.
O Barec, abreviação de Bandeirantes Recreação Clube, existe desde 2002. Tem times de base e amadores no masculino, além do futsal. No feminino, as jogadoras mais novas se mesclam a atletas mais experientes – as idades vão de 16 a 32 anos, e a média é 25. O Barec disputou o Paranaense feminino em 2011, mas ficou ausente nos dois anos seguintes por falta de recursos. Voltou este ano por ter verbas do Fundo Especial de Incentivo a Projetos Esportivos (Feipe) da Fundação de Esportes de Londrina (FEL) e de patrocínios.
As atletas não recebem salários, apenas ajuda de custo. Segundo Cláudio Fontes, coordenador do Barec, as jogadoras locais vieram da equipe que venceu o campeonato escolar do Paraná pelo Colégio Estadual Tsuru Oguido. As atletas de fora jogam em outras equipes e não têm tempo de treinar com as companheiras – elas se apresentam para os jogos na véspera. "O futebol feminino tem dificuldade pelo preconceito que existe. Às vezes, chega na idade de a menina tentar se profissionalizar, e o pai não apoia", lamenta Fontes.
Anataly Liberato dos Santos, de 26 anos, é uma das "estrangeiras" do Barec. Ela mora em Mongaguá (SP), onde trabalha em uma distribuidora de água. "O Paranaense é um torneio curto, e por isso consigo viajar para vir jogar", explica. "Não tem como viver de futebol no Brasil. Hoje, no futebol feminino brasileiro, só o Foz, o São José e o Centro Olímpico têm mais estrutura."
O Assaí é mantido por Renata Costa, da seleção brasileira, que paga as despesas e dá ajuda de custo às jogadoras, todas amadoras. A prefeitura fornece a alimentação do elenco. Segundo o técnico Pedro Henrique da Costa, irmão de Renata, as meninas têm entre 16 e 18 anos e algumas já integram seleções de base. Duas são bolsistas do programa Talento Olímpico do Paraná (TOP 2016), da Secretaria de Estado do Esporte e do Turismo.
"O futebol feminino não cresce porque faltam empresas querendo investir. O Campeonato Paranaense só tem três equipes. Tinham que regionalizar o Estadual, assim aumentava o número de times. E acho que alguma empresa estatal poderia patrocinar o campeonato", afirma o treinador.
Pouco mais de 20 pessoas assistiram à partida de ontem no Café. Uma delas foi a diarista Lúcia Pereira, que foi ver o desempenho da sobrinha Mikely, zagueira do Barec. "Quando ela vai me visitar no Ouro Verde, onde eu moro, os meninos da rua querem que ela jogue com eles. Eles falam: ‘Quero a Cabelo (apelido de Mikely) no meu time, ela é muito boa’", relata Lúcia.
Cláudio Fontes tem esperança de que, por ser contra um dos principais times de futebol feminino do Brasil, o próximo jogo do Barec atraia mais público. "As próprias jogadoras vão fazer a venda de ingressos no Calçadão, no sábado de manhã", avisa.

mockup