O fiasco da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Sydney mostra que além da péssima performance de nossos atletas, outro problema afeta a vida dos desportistas: a falta de estrutura e patrocínio durante os anos que antecedem grandes competições como as Olímpiadas. Segundo especialistas, são necessários dez anos de treinamentos para que um atleta consiga um bom desempenho nos Jogos.
Para obter bons resultados, nossos atletas dependem da iniciativa privada para conseguir estrutura e o sustento necessários para a preparação. O Estado ajuda muito pouco, já que os investimentos dos governos municipal e estadual são cada vez menores. O governo federal fala sempre em outras prioridades e, mesmo não as resolvendo, usa deste argumento para não cuidar do desporto nacional.
A relação entre a falta de patrocínio e estrutura está diretamente ligada ao fracasso nas competições. É o que afirmam e defendem categoricamente governantes, atletas e empresários. Mas as contradições aparecem logo quando o assunto é o apoio desde a base até a fase madura do atleta. Os empresários querem lucrar com a imagem do atleta em um prazo curto, o governo não consegue parceiros para alavancar seus projetos que carecem de recursos e os atletas se submetem a qualquer tipo de remuneração para não ver seus sonhos acabarem por falta de estrutura de treinamento.
Para o jogador de vôlei de praia, o curitibano Emanuel, desclassificado na semifinal em Sydney, o que precisa mudar na relação entre patrocinador e atleta é o envolvimento entre ambos. ‘‘O patrocinador precisa ver que o atleta está envolvido com a empresa como um verdadeiro funcionário e, por outro lado, a empresa precisa olhar o atleta como uma fonte geradora de recursos, que leva a marca do produto em todas as competições, mas que esse investimento requer um certo prazo’’, disse.
Já o triatleta Juraci Moreira Júnior, 22º na Olimpíada, é mais cético. Para ele, a falta de investimentos no esporte é culpa da pobreza do País. Ele diz que o empresariado brasileiro, além de não ter consciência de que o esporte pode mudar um país, não tem recusos disponíveis para este tipo de investimento.
O atleta curitibano não prevê dias melhores para os atletas amadores. Para ele, o ano seguinte a Olimpíada é um terror para o desportista. ‘‘As empresas costumam fazer contratos de curto prazo e a maioria abandona os atletas depois das grandes competições, só voltando quando o atleta vai disputar a Olimpíada ou outro torneio de grande importância’’, disse. Segundo Juraci, a falta de incentivos fiscais acaba inviabilizando a carreira de muitos atletas. ‘‘Quando houver uma política séria que incentive o investimento no esporte, poderemmos vislumbrar um futuro melhor’’, acredita.
O mesmo pensamento tem Maurício Campos, que trabalha com marketing esportivo na Speed Sports. Para ele, ‘‘a maioria do empresariado brasileiro só procura os atletas quando tem certeza de que a mídia vai estar em cima dele’’. Campos disse que os maus resultados dos atletas brasileiros em Sydney são reflexo de uma série de erros onde há muitos culpados e só os atletas são responsabilizados. ‘‘A culpa cai nas costas dos atletas que ficam expostos como os responsáveis pelo fracasso, mas ninguém se lembra de cobrar dos políticos, dos dirigentes e empresários que não fizeram a sua parte’’, disse.
Segundo ele, foi vendido para aos brasileiros a imagem de uma delegação forte e competidora que verdadeiramente não existe. ‘‘Não dá para se basear nos resultados de um Pan-Americano que só leva 20% dos atletas do mundo’’, disse. ‘‘Em uma Olimpíada, o número e a qualidade dos competidores aumenta consideravelmente’’.
Campos é outro que defende uma lei que incentive o investimento no esporte nacional. ‘‘Por que não há uma lei para o esporte igual ao da cultura ?’’, indaga. Ele também critica a forma com que o empresariado enxerga o esporte, exigindo retorno financeiro logo após fechar um patrocínio. ‘‘É necessário que se crie uma consciência esportiva de que um atleta só vai dar bons frutos após um longo tempo de preparação’’, disse. ‘‘Se o Brasil quiser ser uma potência no esporte, terá que mudar a forma com que o esporte é tratado, é preciso pensar em investimentos de pelo menos oito ano antes de uma grande competição’’.
Segundo ele, várias empresas procuraram atletas que a Speed Sports agencia algus meses antes dos Jogos Olímpicos de Sydney. ‘‘Eles queriam fechar contratos de um, dois meses, só para aproveitar o momento máximo do atleta. É claro que eu não aceitei pois é injusto, principalmente se lembrarmos do esforço de tantos anos que os atletas tiveram para estar participando de uma Olimpíada’’, disse.

mockup