São Paulo - Treinadores não se cansam de dizer que futebol é obediência tática. Mas, no caso do Corinthians, o segredo do sucesso do volante Elias é justamente o contrário: o desrespeito. Jogador de marcação, a recomendação que ele recebe do técnico Mano Menezes é para não ir tanto ao ataque. ''Como o Tcheco, que volta mais, recompõe o setor, eu consigo atacar mais, aparecer como homem surpresa'', se diverte o herói dos 2 a 1 sobre o Racing uruguaio, na última quarta-feira.
A prova de que a desobediência vem dando certo está nos números. Com quatro gols, Elias - ganhou ontem uma camisa com o número 100 e seu nome, referente ao número de jogos que completou defendendo o clube diante da Portuguesa - , é o artilheiro da equipe na temporada. Mano dá liberdade ao jogador de, às vezes, aparecer na frente, como surpresa. Só não admite que seja com frequência, algo que o jogador promete cumprir à risca de agora em diante.
Peitar o chefe é correr sério risco de perder a vaga, como aconteceu com o meia Edno - foi para o Botafogo, do Rio de Janeiro - e o argentino Escudero - não está inscrito na Copa Libertadores.
Diante do Racing, Elias balançou as redes adversárias em duas oportunidades pela segunda vez no Corinthians. Já havia feito nos 3 a 1 sobre o Guaratinguetá, em 2008.
Algo raro na vida de um volante. Mas comum na carreira do camisa 7 que, por oito anos, foi centroavante do Palmeiras em sua categoria de base. No arquirrival, Elias vestia a 9 e chegou a ser artilheiro no juvenil, em 2002, com 20 gols, anotando na conquista do título - triunfo por 4 a 3 - sobre Julio César, do Corinthians. ''Eu era um atacante bom, inteligente, rápido, mas tinha um problema: o gol, aquela coisa quadrada'', arrancou gargalhadas.
Parceiro de Edmilson, Vágner Love, entre outros, ele sofreu com depressão por não deslanchar na carreira. Foi para a várzea, pensou em parar e só recomeçou graças ao ex-volante Rincón, que mudou sua posição no São Bento. ''Hoje sou o volante mais feliz do Brasil''.
No próximo domingo, contudo, Elias tem uma missão complicada. Encarar o leve e envolvente Santos, na Vila Belmiro. Sério, ele dá a receita para parar Neymar, Paulo Henrique Lima, André e cia. ''Primeiro, espero que o Robinho não jogue. O Ronaldo até ligou para ele e disse que a seleção é mais importante'', disse, sobre o fato de a seleção brasileira se apresentar no sábado à noite para amistoso diante da Irlanda.
''Depois, não podemos pensar em querer intimidar os garotos. Até porque quem usou dessa tática perdeu. Temos de ir lá e tentar encarar o Santos de igual para igual, esquecer que o Neymar vai vir para cima e tentar jogar bola, senão vai lá e passa vergonha'', completou Elias.

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