A região do Vale do Ribeira, localizada na fronteira Paraná-São Paulo, hospeda um verdadeiro santuário ecológico. Pode-se observar com propriedade toda a beleza e exuberância da Mata Atlântica. Um lugar de majestosa natureza, onde encontram-se cavernas e ecossistemas, que ainda parecem estar preservados no estado mais populoso, industrial e poluído do Brasil. Os rios parecem ser a única maneira de se entranhar na densa vegetação presente no vale.
A convite da equipe paranaense de rafting Ixion Geo/Bull Terrier, partimos neste último fim de semana para uma das aventuras mais imprevisíveis de que participei até agora: explorar os rios Taquari e Turvo de bote, numa expedição sem precedentes, com a finalidade de avaliar suas condições para a prática do rafting. Os rios correm pelos municípios de El Dorado e Iporanga, no estado de São Paulo, e até então consistiam em uma verdadeira incógnita quanto à sua navegação.
Um rio de pedras...
Logo na manhã de sábado nos dirigimos ao primeiro destino: o desconhecido Rio Taquari. Ao percorrer de carro a região, Gilmar Contezini, um dos atletas mais experientes da equipe, observou com otimismo que a quantidade de morros ao redor deveria propiciar boas corredeiras. Foram duas horas viajando de automóvel, atravessamos um rio de balsa e percorremos a metade do caminho numa estrada de terra, que estava mais para um off road do que para os nossos carros.
O guia local Ernesto Fortes avisou que teríamos de seguir um bom trecho a pé, levando os dois botes e todo o equipamento na cabeça – mais dois quilômetros de supremo esforço físico. Na parte final da caminhada, a trilha afinou e tivemos que empurrar os botes, já inflados, pela mata fechada, onde mal passava uma pessoa. Foi um aperto!
Enfim, chegamos ao rio no ponto de partida. Um lugar intocado! Onde a Mata Atlântica exibe a sua beleza com toda intensidade. O ar puro, a água limpa e a presença marcante da floresta impressionaram a todos. Ainda durante a caminhada, observamos várias bromélias, xaxins, os vermelhos bicos-de-papagaio e o forte perfume da dama-da-noite, flor que aparece em abundância na região. Topamos até com uma pegada de onça no meio da trilha...
Nos recompomos com um merecido mergulho nas águas do Taquari e demos início à verdadeira aventura: descer o rio remando sem saber o que nos esperava após cada curva. Um misto de expectativa e adrenalina foi tomando conta da equipe.
Para surpresa geral, já nos primeiros trinta metros demos de cara com várias pedras enormes, que impediam a passagem dos botes. Solução: apelar para a portagem, onde todos saem e carregam os infláveis por cima dos obstáculos. Sempre com a esperança de ver o rio novamente, carregávamos os equipamentos nos equilibrando entre as pedras escorregadias – por estarem sempre molhadas, são cobertas de limo, um perigo! Os buracos entre elas são fundos e escuros... Foi um milagre escaparmos ilesos daquela área.
À medida que avançávamos, um dos atletas se adiantava para indicar ‘‘o caminho das pedras’’. Na maioria das vezes voltava cabisbaixo, com o polegar apontando para baixo, pela ausência de água navegável. Desanimava um pouco.
A primeira metade do trajeto percorrido estava coberto por grandes pedras, ficando o restante dividido em alguns trechos com corredeiras de considerável grau de dificuldade (níveis 3 a 3,5) e, na parte final, com menos interrupções, corredeiras mais brandas (de nível 2). Vale a menção da corredeira nível 3,5, composta por duas quedas d‘água e dois refluxos, que dificultavam o rumo do bote. Um cipó gigante pendurado no meio do primeiro desnível desviou a atenção da equipe e atrapalhou bastante. Esta corredeira foi a maior e mais estudada da expedição. Gilmar e Daniel ficaram meia hora escolhendo a melhor estratégia para superar tal desafio.
Foram necessárias cinco horas para vencer apenas 3,5 quilômetros do Rio Taquari. Veredicto final: rio não apropriado para a prática do rafting. Ficou a impressão de que carregamos os botes no braço o dia inteiro. O atleta Guilherme Macedo explica:
– Aventuras como está não são para qualquer um. O rafting de exploração é uma modalidade diferente e imprevisível, na qual o atleta que a pratica participa por opção própria, pela vontade de explorar e encarar os desafios.
Rio Turvo: enfim, rafting!
No domingo, a bola da vez foi o Rio Turvo. O dia amanheceu azul. Após uma boa noite de sono e um café reforçado, nos dirigimos ao município de Iporanga – mais duas horas de estrada em busca dos pontos de entrada e saída dos botes. Ao acompanhar o rio de carro, avistamos várias corredeiras, o que provocou largos sorrisos na moçada. Afinal eram boas evidências de que o rio poderia ser viável.
O rafting de 13 quilômetros foi traçado em três horas. Valeu a pena! Realmente o Vale do Ribeira é de uma beleza fantástica. A cada trecho, um novo visual se abre. A mata ciliar, com altíssimas árvores, fecham as margens do rio em imensas paredes verdes. As montanhas que acompanham o vale recortam o horizonte com picos de diferentes formas e ladeiras. Em várias ocasiões, sentimos cheiros que variavam dos perfumes e umidade da mata à indesejável urina de gambás. Nosso guia, Ernesto, chegou a sugerir o cheiro de onça nas proximidades.
No trecho explorado, o Rio Turvo apresentou um grande potencial para o rafting, Todos curtiram a descida, que, ao contrário do dia anterior, foi tranquila, com várias corredeiras de grau 2, sem grandes riscos.
– Apesar de estar meio metro abaixo do nível normal e pela quantidade de remansos (áreas sem corredeiras), o rio superou as expectativas, oferecendo uma boa e divertida descida - sentencia Josi, outro integrante da equipe.

mockup