Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
O fundista Robson Douglas da Conceição, 23 anos, de Foz do Iguaçu, quer subir na vida vencendo no menor tempo possível 900 degraus e 64 lances de escada. No dia 29, o atleta quer estar no pódio da 1ª Corrida dos Degraus Banespa - prova que faz parte das comemorações dos 90 anos do banco estadual paulista.
O local da prova é o Edifício Altino Arantes, onde é a sede do Banespa, prédio de 35 andares e de 161 metros de altura que já foi o maior do mundo em concreto armado na década de 40. O arranha-céu é um marco da arquitetura brasileira, encravado no centro financeiro da capital paulista.
Inspirada em um tradicional desafio que ocorre há decadas no Empire State Building, em Nova Iorque - onde os atletas sobem correndo 86 dos 102 andares do edifício mais famoso do mundo -, num total de 1.575 degraus, a curiosa subida do Banespa é a chance para competidores como Conceição ganhar notoriedade, conseguir patrocínio e sair da pobreza extrema. O vencedor recebe R$ 1.200,00.
Com resultados modestos em provas de nível nacional (seu melhor tempo em maratona é 2h48), mas habituado a vencer dificuldades diárias desde criança, o atleta está confiante em uma boa colocação na sua categoria, que reúne atletas de 18 a 24 anos. ‘‘Será minha grande chance de ganhar reconhecimento e um clube para treinar’’, acredita.
Os melhores resultados do maratonista foi justamente em São Paulo - dois quartos lugares consecutivos na categoria iniciante nas duas primeiras edições da maratona oficial da cidade, em 1995 e 1996.
Conceição é carioca. Foi menino de rua e viveu na marginalidade no Recife e em São Paulo. Foi viciado em drogas, antes de descobrir o atletismo. Perdeu a esposa há dois anos em um acidente automobilístico. Desde novembro não tem patrocínio, nem outro emprego. ‘‘Não tinha dinheiro para comprar tênis e tive uma tendinite por correr descalço. Minha recuperação foi lenta porque não tinha como me tratar e isto prejudicou muito minha carreira’’, conta.
Com a ajuda de amigos, cria Robson Michael, o filho de seis anos. ‘‘O garoto também corre bem; quero sair deste momento difícil para poder dar um futuro para ele. Se tiver uma boa estrutura, ele será um grande atleta’’, aposta.
O filho era um dos alunos de uma escolinha de atletismo para 35 crianças carentes, projeto pessoal de Conceição que fracassou por falta de apoio oficial.
Graças à academia Body Move, voltou a ter um cotidiano de atleta a partir de julho. Faz musculação e exercício aeróbico com um preparador físico da academia, em troca do uso da camiseta na prova do Banespa. ‘‘Só preciso de um edifício para poder treinar diariamente. Já fui barrado em três até agora’’, conta, desanimado. Almoça no Vira-Lata, restaurante popular do centro da cidade, que não cobra suas refeições.
A agência do Banespa em Foz também está ajudando Conceição a participar do desafio. O atleta recebeu um tênis novo e as passagens de ida e volta para São Paulo. A agência também bancou os R$ 20,00 da taxa de inscrição da prova. ‘‘Tem muita gente acreditando em mim. Não posso decepcioná-los’’, preocupa-se.

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