Atenas - O atirador paranaense Rodrigo Bastos, de Guarapuava, está de volta aos Jogos Olímpicos depois de 16 anos da sua primeira participação em Olimpíada Seul, em 1988. Ele chegou a Atenas no sábado à noite e aproveitou o domingo para visitar o local onde disputará a prova de fossa olímpica dois dias depois da abertura dos Jogos. ''É bom estar de volta. Principalmente após ter ficado 11 anos parado'', diz. ''Hoje estou muito mais tranquilo e tão bem preparado quanto meus adversários.''
Tanta tranquilidade até assusta o treinador Eduardo Oliveira. ''Ele deve ter trabalhado muito para conseguir ficar calmo como está. É uma surpresa pra mim. Se continuar assim, concentrado, tenho certeza que conseguirá um bom resultado. E isso será muito bom'', completa.
Parte da tranquilidade do atirador vem da preparação que teve para chegar à Grécia. Até a participação nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, República Dominicana, em 2003, se dizia um caso a parte. ''Não tinha um centro de treinamento na minha cidade (Guarapuava). Precisava viajar 270 quilômetros todo final de semana para treinar em Curitiba'', conta.
Das 12 horas de treino acumulada em um único fim de semana, Bastos passou a ter 3 a 4 horas por dia, cinco vezes por semana. ''O tiro é um esporte um pouco diferente dos outros. Não adianta treinar de manhã, à tarde e à noite. Tem que ser muito bem dosado, senão passamos a gravar muito os erros e não só a parte de acertos'', diz o atleta que, em Santo Domingo, fez 124 acertos em 125 tentativas, batendo os recordes brasileiro e sul-americano e igualando os recordes olímpico e mundial.
''Em Santo Domingo ele ficou um pouco abalado quando ficou sabendo sobre os recordes, mas já voltou ao normal'', diz o treinador.
Nos últimos dois meses, Bastos deu em média dois mil tiros por semana, com uma espingarda Bereta (marca italiana) feita sob medida. ''É um sonho pra mim poder atirar com uma arma dessas. A fábrica é uma das melhores do mundo e existe há 500 anos''.
Para Atenas, ele trouxe 1.250 cartuchos. Até o início da competição, treinará mais quatro dias. Mas quando é questionado sobre resultado, esquiva-se. ''Qualquer coisa que eu falar, criará uma expectativa. Só a questão de estar classificado, de estar em Atenas, já é um resultado maravilhoso pra mim. Estou muito feliz por estar aqui''.
Bastos ficou 11 anos afastado do esporte porque investiu na sua profissão de dentista. ''Estava na faculdade, me casei, tive filhos e as coisas mudam de importância. Agora achei que já era hora de voltar.''
E, pelo que tudo indica, parar de novo não está em seus planos. ''Abri uma franquia do meu consultório e, por isso, não preciso estar presente o tempo todo. Acho que ainda tenho chance de ir para mais umas três ou quatro olimpíadas'', diz, entre risos, lembrando que atiradores normalmente competem até os 50 anos.
As disputas da modalidade fossa olímpica, prova para qual está classificado, acontecem nos dias 15 e 16 de agosto, no Centro Esportivo Markopoulo. Nesta prova, os competidores fazem cinco séries de 25 pratos cada, três no primeiro dia e duas no segundo, classificando-se para a final e definição de medalhas os seis melhores. A decisão é feita com mais uma série de 25 pratos.
Início Bastos começou a atirar aos 12 anos com seu pai. No início, caçava codornas, mas depois que foi proibido a caça só é liberada nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul começou a atirar em pratos. ''Nosso esporte sempre foi visto da maneira errada. Ninguém enxergava o tiro como esporte. Agora é que teve este impulso. Não sei se foi por mim. Se foi, que bom, mas o mais importante é crescer, sendo ou não por minha causa.''

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