Washington - Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira foram denunciados ontem à Justiça dos Estados Unidos sob a acusação de fraude e corrupção e podem ser condenados a até 20 anos de prisão se forem considerados culpados. Mas não há nenhuma garantia de que venham a cumprir a eventual pena, já que a Constituição do Brasil proíbe a extradição de brasileiros a outros países.
Os dois dirigentes foram acusados, ao lado de 14 integrantes de organizações ligadas à Fifa, na segunda fase do processo sobre corrupção no futebol internacional iniciado pelo Departamento de Justiça norte-americano em maio. Com as novas denúncias, o número de pessoas e entidades que são réus no caso chega a 41.
Segundo os procuradores que atuam no caso, Del Nero e Teixeira receberam propinas para definir os direitos de transmissão da Copa do Brasil, da Copa Libertadores e da Copa América. Entre esses pagamentos estavam R$ 2 milhões anuais desembolsados pelo dono da Traffic, José Hawilla, que eram divididos entre Del Nero, Teixeira e José Maria Marin, outro ex-presidente da CBF denunciado por corrupção. Preso na Suíça em maio, ele foi extraditado para os Estados Unidos e está em prisão domiciliar em Nova York.
Teixeira também foi acusado de receber propina de US$ 20 milhões da Nike pelo contrato de patrocínio da seleção brasileira de futebol fechado em 1996, quando era presidente da CBF. Quantia equivalente foi dada pela empresa norte-americana à Traffic, em um pagamento total de US$ 40 milhões.
"Del Nero, Marin e Teixeira conspiraram de forma intencional para criar um esquema para fraudar a Fifa e a CBF", afirma a acusação dos procuradores federais norte-americanos, apresentada a uma corte do Brooklyn, em Nova York. Para isso, falsificaram notas, contratos e até certificados de propriedades.
Segundo a acusação apresentada à Justiça, Teixeira "usou sua posição para criar esquemas para pedir e aceitar pagamentos ilegais e propinas", além de utilizar "seu poder e influência para enriquecer de forma ilegal".
Richard Weber, chefe do Departamento Criminal da Receita Federal dos Estados Unidos, disse que a investigação realizada por diferentes agências norte-americanas revelou a existência de uma "Copa do Mundo da Fraude". Indivíduos de pelos menos 20 nacionalidades estão sendo acusados e o rastreamento dos recursos usados no pagamento de propina mostrou que eles tiveram origem em 40 diferentes países. "Esse caso envolveu uma das mais complexas investigações financeiras globais já realizadas", disse, em Washington.
Como todos os outros acusados, Del Nero, Teixeira e Marin passaram a ser investigados porque pelo menos parte dos recursos que receberam de maneira ilegal passou por bancos norte-americanos. "A integridade do sistema financeiro dos Estados Unidos foi violada pelos indivíduos denunciados hoje (quinta-feira) e na acusação anterior", afirmou Weber.
A secretária de Justiça dos Estados Unidos, Loretta Lynch, afirmou que há "vários caminhos" pelos quais réus podem ser levados à Justiça norte-americana, mesmo nas hipóteses em que a extradição não é possível. "Em muitos casos, os acusados decidem se apresentar", afirmou Lynch, que reúne atribuições que no Brasil estão divididas entre o ministro da Justiça e o procurador-geral da República.
Com base em informações da CPI do Futebol no Senado, a Fifa abriu uma investigação contra Del Nero. Se punido, ele poderá ser suspenso do futebol. Ontem, o dirigente decidiu se afastar do comando da CBF. Em seu lugar estará Marcus Antônio Vicente, atual vice da CBF e ex-presidente da Federação Capixaba de Futebol.

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