Agência Estado
De São Paulo e BH
A amizade é eterna, mas enquanto a bola estiver rolando, que vença o melhor. Este é o pacto firmado entre Guilherme e Luizão, os artilheiros de Atlético-MG e Corinthians, finalistas do Campeonato Brasileiro. Amigos desde a adolescência, de frequentar a casa do outro, reunir as duas famílias para um churrasco e até jogar juntos, como aconteceu enquanto ambos estiveram no Vasco, os dois atacantes prometem esquecer a amizade e pensar cada um no objetivo principal – o de levar sua equipe ao título brasileiro.
Os dois jogadores seguiram caminhos parecidos: começaram em clubes do interior paulista: Luizão no Guarani; Guilherme, no Marília. Foram jogar em grandes equipes da Capital, o primeiro no Palmeiras e o segundo no São Paulo. Depois, seguiram para a Espanha. Luizão foi para o Deportivo La Coruña e Guilherme passou três anos no Rayo Vallecano. Voltaram ao Brasil. Luizão foi para o Vasco e Guilherme passou pelo Grêmio antes de encontrar o amigo em São Januário.
O Vasco dispensou esse ano Luizão e Guilherme, artilheiros dos dois times finalistas da competição: Corinthians e Atlético-MG. O clube carioca emprestou o passe de Guilherme, artilheiro do Brasileiro com 25 gols, ao Atlético-MG porque contava com outros atacantes. A saída de Luizão do Vasco foi provocada por uma confusão envolvendo a compra de seu passe, que acabou resultando na sua dispensa.
O vice-presidente de Futebol do Vasco, Eurico Miranda, garante que não se arrepende de ter aberto mão dos dois jogadores. ‘‘Se eu fosse lamentar todos os jogadores que fizeram sucesso após sair do Vasco, teria de me preocupar com vários nomes.’’
Eles se separaram este ano para defender dois clubes alvinegros. Luizão busca seu espaço no Corinthians. Guilherme já é ídolo no Atlético-MG.
O atacante da equipe mineira prefere deixar todas as honras para o adversário. Guilherme diz que o Corinthians é o grande favorito para a conquista do título. Jura também que não está preocupado em bater o recorde de Edmundo, principal artilheiro da história do Campeonato Brasileiro com 29 gols. Guilherme marcou 25 e tem mais dois ou três jogos pela frente. ‘‘O que eu quero é ser campeão’’, avisa o jogador de 25 anos. ‘‘Sofremos muito para chegar até essa final e não vamos entregar este título de graça para o Corinthians.’’
Sobre Luizão, Guilherme evita entrar em maiores detalhes. Não quer saber de provocações ao amigo através da imprensa. Só lamenta não poder ter aproveitado melhor a chance que teve de jogar ao lado do colega quando ambos estiveram no Vasco. ‘‘O Luizão era o titular e eu soube respeitar isso’’, afirma Guilherme. Foi o amigo quem o incentivou a deixar o Vasco e ir para o Atlético-MG por empréstimo. Guilherme foi, e não se arrepende. Seu contrato termina em julho de 2000. Se o Atlético-MG quiser ficar com seu passe em definitivo, precisa pagar US$ 2,5 milhões (quase R$ 5 milhões).
Luizão é daqueles atacantes ‘‘fominhas’’, que cobiça a artilharia de qualquer competição. No Corinthians, chegou a ‘‘brigar’’ com Marcelinho Carioca pelo direito de ser o cobrador oficial de pênaltis da equipe. Mas, agora, às vésperas da decisão do título brasileiro, ele já abriu mão de ser o goleador do campeonato em favor de Guilherme.
‘‘O Guilherme é uma pessoa que eu adoro, é como um irmão para mim; as nossas famílias se dão muito bem e eu fico muito feliz que ele esteja se destacando como artilheiro deste Brasileiro: está em boas mãos’’, afirmou. ‘‘Já disse a ele que eu abro mão da artilharia em troca da conquista do campeonato: nunca fui campeão brasileiro e acho que chegou a hora.’’
Luizão começou o Brasileiro de forma arrasadora. Disparou na artilharia, mas foi ultrapassado por Alex Alves, do Cruzeiro, e depois atropelado pelo amigo Guilherme, que hoje tem 25 gols contra 18 do corintiano. ‘‘É difícil reverter essa diferença de sete gols, mas em uma partida ela já pode ser pelo menos diminuída’’, analisou Luizão, satisfeito com a sua média de 0,78 por partida. ‘‘Não joguei todas porque sofri algumas contusões; caso contrário, poderia ter mais alguns gols na tabela’’, afirmou o atacante, que sofre de uma tendinite crônica nos tendões de aquiles por ter os pés chatos.
Para Luizão, Guilherme tem mais facilidade em ser artilheiro no Atlético-MG do que ele no Corinthians. ‘‘O Atlético joga em função dele, assim como o Cruzeiro joga em função do Alex Alves; aqui, eu jogo em função do Corinthians.’’
Luizão lembra que ele e Guilherme, que era seu reserva no Vasco, não tiveram um início de ano promissor. Foram dispensados pelo clube carioca. ‘‘Nós dois saímos juntos do Vasco no meio do ano e hoje estamos disputando a final do Brasileiro’’, disse, com certa ironia.
Na época, Luizão incentivou a ida de Guilherme para o Atlético-MG. ‘‘Nós conversamos e eu disse que ele ia se dar bem lá, jogando ao lado do Marques, que é um grande assistente; não sabia que isso ia se voltar contra mim’’, disse.

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