O profissionalismo e os grandes investimentos financeiros ajudaram o futebol a ser o esporte mais conhecido no mundo. Porém, no Brasil, a maior potência reveladora de craques do planeta, nem mesmo as grandes cifras fizeram com que os clubes mudasssem sua filosofia escravocrata de trabalho. Uma das mais graves afrontas ao direito do cidadão foi proposta recentemente pelo Clube dos 13: o jogador que ingressar na Justiça do Trabalho para reclamar seus direitos não jogará mais em nenhuma associação filiada ao clube que agrega os 20 maiores times do País.
A decisão teve repercussão negativa entre jogadores e magistrados. Para o juiz do Trabalho Eduardo Milléo Baracat, a proposta é no mínino ‘‘chocante’’. Ele se diz indignado com a forma com que os dirigentes propõem algo que afronta a Constituição. ‘‘Tenho a impressão de que eles (Clube dos 13) se baseiam na impunidade para fazer uam declaração como esta’’, disse.
O magistrado afirmou ainda que há a necessidade de um reação contundente das autoridades ao ponto de, se continuar a prática, haver uma intervenção nos clubes. Porém, o juiz alerta para a dificuldade de se conseguir caracterização das provas neste caso. ‘‘Uma coisa é ser dispensado por ter ajuizado uma questão; e outra é ele não ser contratado por outro clube por causa desta ação’’, disse. Baracat afirmou ainda que há a necessidade de uma intervenção do Ministério Público do Trabalho e também do Ministério Público Federal. ‘‘A proposta, feita com uma arrogânca inacreditável, fere as leis trabalhistas e passa por cima da Constituição.’’
O juiz aborda ainda um outro fator na questão, a discriminação. ‘‘Os atletas que forem discriminados por qualquer clube poderão, em tese, postular perante a Justiça do Trabalho indenização por dano moral’’, afirmou, baseando-se na tese de que o atleta tem sua imagem exposta de forma negativa perante os torcedores do clube.
Para o presidente do Coritiba, Sérgio Prosdócimo, a decisão é polêmica e deve ser tratada caso a caso. ‘‘No Coritiba, procuramos o bom senso, onde as duas partes possam sair satisfeitas’’, disse, afirmando que a situação é jocosa pois o Coritiba faz parte do Clube ds 13 e não tem interesse em bater de frente com a instituição mais poderosa do futebol brasileiro.
O diretor de futebol do Atlético, Samir Haidar, disse que não há proibição que vingue diante de uma boa conversa. Para ele, se o Atlético, por exemplo, se interessar por um atleta que tenha ganho o passe na Justiça, vai tentar contratá-lo. ‘‘Vamos conversar com o jogador e com o seu ex-clube para um acerto. O que é combinado, não é caro.’’
Os jogadores se sentem acuados com a situação. O lateral-direito do Atlético, Luisinho Netto, disse que o atleta vai ter que pensar duas vezes antes de procurar seus direitos na Justiça. ‘‘Fica uma situação difícil para o jogador porque ao mesmo tempo que tem seus direitos, sente medo de ser prejudicado, ainda mais os atletas que não têm tanto destaque ainda.’’
Nenhum jogador gosta de ver o mercado se fechando. O meia Lúcio Flávio é um deles. ‘‘O Brasil está mudando. O caso Gama contra o Clube dos 13 foi um despertar para toda a sociedade. Os jogadores falam desse assunto quando se encontram. Hoje, alguns atletas defendem a organização da classe para combater os abusos dos dirigentes’’.
Lúcio não deixa claro se apóia a represália do Clube dos 13 contra os atletas que procurarem a Justiça do Trabalho para conseguir seus passes. ‘‘É uma forma encontrada pelo Clube dos 13 para evitar prejuízos futuros. Nós, os profissionais, que vivemos do futebol, somos os maiores prejudicados com decisões como esta.’’
Já o experiente João Santos acha a decisão dos clubes um ‘‘absurdo’’. Segundo ele, a situação mostra o quanto a classe de jogadores é desunida e que é a hora das autoridades agirem para impedir estas injustiça. ‘‘Este tipo de proposição me assusta porque pode virar uma regra devido ao poder que os cartolas têm sobe os jogadores que precisam de seus empregos’’, disse. ‘‘Na minha opinião, todo trabalhador tem o dever de buscar seus direitos para que outras pessoas não venham a sofrer com medidas absurdas como esta.’’

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