De repente vem a fama e um monte de 'chupins'
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sábado, 19 de julho de 2003
Agência Estado 
São Paulo - Alguns gols bonitos, passes perfeitos, dribles caprichados, pedaladas atrevidas são ingredientes que transformam um garoto em astro do dia para a noite. Com a fama repentina, aparecem as primeiras badalações, homenagens, convites para festas, contratos de gerenciamento de imagem, de uso de chuteiras exclusivas, de bonés, carrões e roupas de grife.
Com a notoriedade, surgem também amigos de todas as partes, prontos a exaltar as qualidades do novo astro e a fazer parte de sua corte de admiradores. Além de vendedores de jóias, de automóveis, de terrenos, sítios e apartamentos, de perfumes, de celulares, de planos de saúde, de aposentadoria.
A mudança brusca de rotina e os sinais de desconcentração muitas vezes incomodam. O mais recente grito de alerta veio de Emerson Leão. O treinador do Santos incorporou o estilo de Oswaldo Brandão, Telê Santana e Felipão e soltou a bronca. ''O que atrapalha o jogador é a periferia'', desabafou, nos dias que antecederam à final da Libertadores da América. Antes do fracasso diante do Boca Juniors, mostrava indisfarçável desconforto com atitudes que considerava inadequadas para momento tão importante.
A contrariedade de Leão não era passageira. Com quatro décadas de experiência no futebol, sabe que é difícil lidar com o que chama de chupins, mas decidiu não baixar a guarda. ''A pressão vem de fora para dentro e é mais forte do que se imagina'', dispara, sem poupar quase ninguém. ''São amigos e parentes, empresários, pastores, aproveitadores de todo tipo. Muitas vezes eles ficam como papagaios de pirata pendurados em volta o dia todo.''
A dificuldade maior, em sua avaliação, é a vaidade de quem se vê centro de atenção do dia para a noite. ''Eles acreditam mais nessa gente do que em nós'', lamenta, inconformado. ''O pior é que tudo gira em torno de grana. Quanto maior a fama e o salário do atleta, mais tem interesseiros.''
'Rolos' A dificuldade de lidar com egos precários e inflados fez com que José Carlos Brunoro desistisse de atuar com jogadores de futebol. Depois de anos como principal dirigente na parceria Palmeiras/Parmalat, decidiu tentar carreira solo e administrar a carreira de astros da bola. Abriu mão da atividade, depois de experiências frustrantes. ''Parece que gostam mais de trabalhar com caras roleiros'', revela. ''Muitos dão ouvidos ao sujeito que lhes vende dez carros por ano e não para o técnico ou o dirigente'', afirma, em coro com Leão. ''Se o treinador fala mais duro, vira inimigo. Se o diretor adverte, pensam que quer tirar vantagem. Quando alcançam certa fama, alguns só gostam de ouvir o que lhes interessa. Mais direitos e menos deveres.''


