Teresópolis - Uma atitude da atual diretoria da CBF tem provocado mal-estar entre políticos e moradores tradicionais de Teresópolis e, principalmente, de parentes de Heleno Nunes, o mentor da concentração da seleção brasileira na cidade serrana. O centro de treinamento passou por obras a partir do início de 2013 a fim de receber a seleção para o Mundial, e várias homenagens ao ex-presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), hoje CBF, foram retiradas do local.
"É uma violência contra a nossa família. Não se pode destruir a memória da seleção brasileira, apagar uma história, um sonho." A psicóloga Regina Helena viu nascer em 1987 o Centro de Treinamento Heleno Nunes (Cetren). Ela prende a respiração e quase interrompe o desabafo ao lembrar da relação do pai com o CT. É ali que Neymar, Oscar, David Luiz, Fred e seus colegas treinam e se preparam para os jogos da Copa do Mundo desde 26 de maio.
Depois das obras de reforma que custaram R$ 15 milhões à CBF, finalizadas em abril, o busto de Heleno, então acomodado na entrada dos alojamentos dos atletas, acabou transferido para algum lugar ignorado por Regina e sua mãe, Maria Luíza. A viúva tem apartamento e um sítio em Teresópolis. Abatida com o que considera uma agressão à memória do marido, está reclusa no Rio. "Minha mãe tem sofrido muito com isso. Está com a saúde mais fragilizada ainda por causa desse absurdo."
Além do busto, deixaram o espaço original várias placas de bronze na parte de cima da concentração, em que o nome de Heleno Nunes era destacado como o principal responsável pelo CT. Agora a área vip do centro reverencia José Maria Marin, o atual presidente da CBF. Setas e letreiros com o nome do centro (Cetren) também não são mais vistos na Granja Comary.

CARTA DE VEREADORES
Heleno Nunes presidiu a CBD de 1974 a 1980. Por seu intermédio, a seleção fez de Teresópolis uma das bases para a preparação da Copa de 1966. Ele morreu em 1984, aos 67 anos. A Câmara de Vereadores da cidade enviou carta à CBF no primeiro dia de abril deste ano pedindo à entidade que preserve o nome de Heleno Nunes no centro. "A notícia de retirada do busto do almirante do CT causou comoção e indignação", registra parte do documento assinado por todos os 12 vereadores de Teresópolis.
Dois dias depois, a viúva Maria Luíza fez o mesmo, num texto carregado de emoção, no qual detalha a contribuição de Heleno para o futebol e à cidade. Por sua influência política, o ex-dirigente teve papel fundamental na construção da estrada Rio-Teresópolis e conseguiu verbas para obras de saneamento e a chegada da luz elétrica em parte da região serrana do Rio.
Endereçada a José Maria Marin, a carta exige providências. "É este o homem que teve sua imagem retirada de um espaço reservado ao futebol. É este o homem cujo nome foi eliminado do centro esportivo que só existe graças a ele. É este o homem cuja família repudia esta ação desrespeitosa por parte da CBF, de quem aguarda esclarecimentos, no mínimo."
A CBF escreveu para Maria Luíza e os vereadores ainda na primeira semana de abril. O conteúdo das respostas é quase o mesmo e parece protocolar. Informa que por causa das obras houve a necessidade de remoção do busto. Não menciona o destino das placas e nem sequer dos letreiros indicativos do Cetren. E afirma que ao fim das obras "o busto será reposto".
Dois meses e meio após esse último contato, nada mudou. "A família está exposta a uma situação de humilhação. Isso me soa com um ato de truculência", diz o genro de Heleno, o coronel do Exército Paulo Renato. À reportagem, a CBF, por meio de sua assessoria de imprensa, repetiu o teor das mensagens enviadas à família e aos políticos de Teresópolis.

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