LEGADO DA OLIMPÍADA
Não vamos misturar as coisas. É indiscutível o momento conturbado que o país atravessa com a tímida reação da economia e com a incerteza política, cenário que provoca protestos desde o revezamento da tocha. No entanto, a Olimpíada do Rio não é a causa dos nossos problemas. O próprio esporte brasileiro sofre com os desvios de recursos, que poderiam ajudar na formação de atletas e na compra de equipamentos esportivos. Além de não ser um problema, é fato inegável, a inspiração e esperança que chegam com o espírito olímpico.
Na última sexta-feira, o mundo se rendeu aos encantos do Brasil durante a cerimônia de abertura no Maracanã. Com Santos Dumont no 14-Bis e o "Samba do Avião" de Tom Jobim, um voo panorâmico mostrou todas as belezas da Cidade Maravilhosa. "Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro", eternizou Antônio Brasileiro. Ao som do piano, a nova "garota de Ipanema", Gisele Bündchen, desfilou todo o charme e elegância da mulher brasileira ("quando ela passa o mundo inteirinho se enche de graça").
Das Olimpíadas nascem grandes memórias e heróis que inspiram novas gerações. Parece mesmo mitologia grega. E esse é o grande legado que fica. Não acredito que a Rio-2016 vai mudar o Brasil, mas os Jogos serão fonte de esperança individual. O esporte tem essa força. Recentemente, o velocista Edson Luciano esteve em Londrina e visitou algumas escolas para falar sobre os perigos do doping e das drogas. A FOLHA mostrou como o medalhista é um modelo para os novos atletas que treinam na cidade.
Não é possível mensurar o impacto dos protagonistas olímpicos. Só imaginar quantas meninas e mulheres começaram a praticar esportes depois do salto de Maurren Maggi ou quantos caíram nas piscinas após as lágrimas de César Cielo. Ou ainda, quantos brasileiros simplesmente seguiram em frente inspirados pela persistência do paranaense Vanderlei Cordeiro de Lima, que entrou mais uma vez para história ao acender a pira no Maracanã. Em 1936, o norte-americano Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro em Berlim. Em meio ao governo nazista, o atleta negro mostrou a igualdade racial e Hitler foi embora mais cedo do Estádio Olímpico para não cumprimentar o campeão.
O esporte é transpiração por fora, mas muita inspiração lá dentro e isso contagia até os sedentários. Por isso, o melhor neste momento é aproveitar os Jogos e tirar dele um pouquinho de esperança, que já começou a brotar com as meninas do futebol e handebol e na primeira medalha brasileira conquistada pela precisão oriental do tiro de Felipe Wu. Boa semana e boa Olimpíada.

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