Da várzea para a glória de campeão,o ``Flecha loira fez sua história
Albari RosaCriado no bairro da Barreirinha, Kruger enfrentou tragédias no esporte, superou-as e se notabilizou pela solidariedadeA solidariedade para com os companheiros e a precisão nos passes eram duas das marcas do craque. Numa vitória por 3 a 2 sobre o Atlético de Madrid, um dos maiores times do mundo, em 1967, no então Belfort Duaerte, os gols do Coritiba foram do centroavante Walter – com três passes de Kruger. Tamanha precisão no toque de bola foi conquistada nos campos de várzea da Barreirinha, como ele mesmo conta:
– Eu e um amigo saíamos da escola e íamos jogar só nós dois. Ficávamos chutando no gol, mas não tinha rede e a bola ia longe, o outro tinha que buscar. Então, combinamos de cada um ficar de um lado do gol e chutar tentando fazer a bola bater na trave. No começo era difícil, mas depois quase todas as bolas batiam na trave. Então, para deixar mais complicado, passamos a chutar só de esquerda. Acho que daí aprimorei a precisão do chute e do passe com as duas pernas.
O melhor jogador que já vestiu a camisa alviverde do Coritiba em todos os tempos começou a jogar na várzea, no Combate Barreirinha, onde ganhou o apelido de ‘Flecha Loira’, dado pelo jornalista Albenir Amatuzzi. Passou depois para o União Ahu. Profissionalmente, estreou com a camisa do Britânia, aos 17 anos, em 1963, jogando em Paranaguá, contra o Seleto, pelo Campeonato Paranaense. Fez seu primeiro gol como profissional algumas rodadas depois, em um jogo contra o Operário Ferroviário de Ponta Grossa.
Antes de se transferir para o Alto da Glória, já era comentado pelos torcedores coxas. ‘‘Sempre joguei bem contra o Coritiba’’, lembra. O zagueiro Bequinha que o diga. Era o grande jogador de defesa do Coritiba e poucos conseguiam passar por ele. Em 1960, o Santos veio jogar com o Coritiba e Pelé, que havia conquistado o seu primeiro título mundial em 58, estava no time. Em uma jogada rápida, meteu a bola entre as pernas de Bequinha. Depois, o zagueiro Coxa devolveu o drible dando um chapéu em Pelé para a alegria da torcida. Pois esse mesmo Bequinha não conseguia parar Kruger quando o Coritiba jogava contra o Britânia. Ficou aliviado com a contratação do adversário.
Nem tudo foi fácil na vida de Kruger dentro do Coritiba. Em 1967, fraturou a clavícula num jogo com o São Paulo, de Londrina, no VGD. No ano seguinte, contra o Britânia, fraturou a perna. No auge da carreira, em 1970, em um jogo contra o Água Verde dentro do Couto Pereira, depois de driblar a zaga e chapelar o goleiro Leopoldo, empurrou a bola para dentro do gol e não pode evitar o choque com o arqueiro que, desesperado, atirou-se contra ele, atingindo-o com uma joelhada. Kruger teve ruptura da alça intestinal e outros problemas no aparelho digestivo, chegando a ficar em coma.
Depois do acidente ficou um bom tempo no hospital e teve a carreira ameaçada. Era reconhecido como craque por todas as torcidas, tanto que o Atlético mandou rezar uma missa na Igreja do Perpétuo Socorro pedindo pela pronta recuperação do artilheiro. Voltou aos campos em 1971 e seguiu carreira até 1976. Depois disso continuou no Coritiba como auxiliar técnico e por várias vezes – nem ele se lembra quantas – assumiu o time em momentos de dificuldade. Nunca, no entanto, quis abraçar definitivamente a carreira de técnico. ‘‘Se me profissionalizasse como técnico teria que, um dia, deixar o Coritiba e a cidade de Curitiba, e não quero isso para mim.’’
A paixão pelo clube é tanta que ele e a esposa Iraci consideram que o maior presente que sua filha Marina ganhou ao completar 15 anos foi o título de campeão paranaense de 1999, o 30º do clube e depois de dez anos de ‘‘jejum’’, que coincidiu com o dia do aniversário da garota. ‘‘Ela nunca vai esquecer’’ diz. Nem a torcida vai esquecer Kruger, mesmo que se passem mais 90 anos.

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