Lúcio Horta
De Londrina
Não basta gritar, chorar, acenar com a mão, vestir a camisa verde-amarela ou colar os olhos no ídolo. Fã que é fã, para ser daqueles de carteirinha, tem que ter caneta, pedaço de papel na mão e uma disposição de atleta. Na primeira oportunidade, saca os apetrechos, gruda no alambrado e só sai dali com pelo menos meia dúzia de assinaturas.
Assim tem sido a vida dos ‘‘caçadores de autógrafo’’, em Londrina, com a presença da seleção pré-olímpica. A maior concentração ocorre no Estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), durante os treinamentos. De manhã e à tarde, dezenas deles se concentram nas arquibancadas, do lado oposto à cabine das emissoras de rádio. A festa maior ocorre sempre ao final dos trabalhos, quando os jogadores e até o técnico Wanderley Luxemburgo atendem a sede dos fãs.
Para as amigas Andréia Serato Grosso e Cristiane Nakay Guandalini, ambas com 14 anos, a grande aventura do treino de quarta-feira foi conseguir alguns segundos da atenção do meia Alex, do Palmeiras. Mas não foi só o caderninho de autógrafo que elas levaram ao VGD: o jogador também seria presenteado com uma carta enorme, feita com pelo menos uma centena de papel sulfite, colados uns aos outros, e outras centenas de ‘‘nós te amamos’’.
‘‘Somos torcedoras do Palmeiras e adoramos o Alex. Por causa do jeito dele, tão meigo, tão fofo... A gente até pensou em ir para São Paulo assistir aos treinos do Palmeiras. Mas como ele está aqui, ficou mais fácil’’, disse Andréia, que incorporou o clima do Pré-Olímpico até no sorriso: os elásticos do aparelho ortodôntico são das cores verde e amarelo. ‘‘Gosto tanto do Alex que, no Paraná, torço para o Coritiba. Só porque ele jogou lá.’’
Além do caderninho e da carta gigante, a dupla também levou ao VGD outra carta menor e quatro cartazes de cartolina, todos com elogios rasgados ao jogador. ‘‘Se ele vier aqui, vamos dizer que fizemos tudo isso para ele’’, suspirava Cristina. As amigas até tiveram contato rápido com o ídolo, no aeroporto local, quando a delegação chegou a Londrina. Com muito custo e empurra-empurra, conseguiram ganhar o autógrafo. ‘‘Ele foi muito simpático, disse que gosta de Londrina. Mas agora a gente quer dizer o quanto a gente gosta dele’’, completou.
Tanto trabalho, na quarta-feira, valeu a pena. Ao final do treino, Andréia e Cristiane puderam entregar tudo o que tinham feito no dia anterior e até tiraram fotografias ao lado do meia – cada qual, ídolo e fãs, de um lado do alambrado. De quebra, lotaram o caderninho com assinaturas de outros membros da equipe, que por cerca de meia-hora atenderam ao assédio dos fãs. Mas o troféu mesmo, exibido entre risos e lágrimas, era o novo autógrafo do meia palmeirense. ‘‘Ele é demais!’’, gabavam-se.
Mais discreto, o corintiano André Marin, 14 anos, segurava o caderno e a caneta na mão e esperava, com esperança, conseguir as assinaturas de Denílson – cortado no dia seguinte – e Ronaldinho Gaúcho. ‘‘Porque eu acho que eles jogam bem, sempre gostei do futebol dos dois. Por isso, se pegar a assinatura dos dois, já fico satisfeito’’, assegurou. ‘‘Se der, pego dos outros também.’’
André conta que esta não foi a primeira vez que pediu autógrafo a um jogador de futebol. Quando tinha 9 anos, passeando em São Paulo com o pai, encontrou o craque Sócrates, eterno ídolo da torcida corintiana, num restaurante. Magrão – como era conhecido o jogador – não foi reconhecido logo de cara, mas André ganhou uma ajuda preciosa. ‘‘Meu pai disse que ele era irmão do Raí e não tive dúvidas: fui lá e pedi o autógrafo’’, disse o garoto.
Também corintiano e vestindo a camisa do clube paulista, Rafael Obuchi de Melo, de apenas 9 anos, nunca havia pedido autógrafo para ninguém. ‘‘Quero pegar do Ronaldinho Gaúcho e de todos os outros também. Vou guardar de recordação’’, disse. Outro que esperava conseguir o autógrafo de Ronaldinho era um palmeirense de 12 anos e com nome pomposo: Jack Jonathan Christopher Lourenço. ‘‘E também do Alex, claro. E, se conseguir, vou guardar para o resto de minha vida’’, assegurou.
Já para o são-paulino Leandro Ramos dos Santos, 12 anos, os alvos eram Denílson e Fabiano. ‘‘O primeiro porque já foi craque de um time especial para mim; e o segundo porque ainda joga no São Paulo’’. No caderno reservado para pegar o autógrafo do jogadores da Seleção – e que pretende estender para atletas de outros clubes, a partir do Pré-Olímpico –, a foto da capa era de outro atacante, Romário, hoje jogador do Vasco da Gama. ‘‘É que sou fã dele também’’, justificou.
Mas não são só caderninhos que compõem o ‘‘kit’’ de sobrevivência dos caçadores de autógrafos. O são-paulino Jeferson Gambi de Souza, 10 anos, entregou a própria camisa canarinho para que os craques da seleção assinassem. Na quinta-feira ele já tinha conseguido 14 autógrafos, inclusive do técnico Wanderley Luxemburgo e dos astros Alex, Denílson e Fábio Júnior. ‘‘Entrei no meio de todo mundo, tirei a camisa e fui pedindo. Agora só falta do Fábio Costa e do Cris. Mas vou conseguir’’, afirmou ontem, enquanto desfilava, orgulhoso, com a camisa cheia de autógrafos.

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