Da roça para o UFC
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quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
É da infância difícil na área rural em Umuarama (Noroeste), que Jéssica Andrade Bate-Estaca tira ensinamentos todos os dias para treinar. A força que a primeira brasileira a lutar no Ultimate Fighting Championship (UFC) mostra hoje para finalizar as adversárias vem dos muitos anos de trabalho pesado, ajudando o pai na colheita, carregando sacos de milho nas costas. Isso explica um pouco porque oponente nenhuma consegue intimidar a pequena guerreira, de 1,58 metro de altura.
"Acho que foi daí que veio essa força toda", diz ela. A vida lhe impôs vários obstáculos, mas nenhum foi capaz de fazê-la desistir. O sonho de menina nem era ser lutadora. "Eu jogava bola, tênis de mesa, basquete, vôlei, nem sabia o que era luta, só de ver na televisão mesmo. Eu queria ser jogadora de futebol", conta. Mas bastou a primeira luta de judô aos 18 anos, em um projeto social, para encontrar de vez seu habitat. "Na primeira aula, o professor me colocou para lutar com o menino mais forte que ele tinha e eu desci o carro nele. Foi aí que começou tudo", relembra.
Em quatro anos, a lutadora teve uma ascensão meteórica. Da primeira luta no MMA, em 2011, ao UFC foram dois anos. A estreia no maior evento de lutas do mundo foi em julho do ano passado: derrota para a americana Liz Carmouche. Depois, como ela mesmo diz, foi só alegria, com vitórias sobre a também americana Raquel Pennington e a inglesa Rosi Sexton. O bom desempenho rendeu até um contrato novo, válido por quatro anos, com a empresa do chefão Dana White.
O próximo desafio já tem data: 13 de setembro, no UFC Fight Night 51, que será realizado em Brasília, no ginásio Nilson Nelson. A adversária seria Valerie Letourneau, na categoria peso galo (até 61kg), mas a canadense se lesionou e foi afastada. Para seu lugar, White escolheu outra brasileira: Larissa Pacheco, paraense que acabou de faturar o título do Jungle Fight. O que muda para Bate-Estaca? Segundo ela, quase nada.
"Geralmente muda, mas para essa não vou precisar mudar tanto, porque as duas têm praticamente o mesmo jogo. A Valerie é um pouco mais experiente, tem mais lutas, já vinha de vitórias no UFC. Com a Larissa vai ser um pouco mais fácil. Ela é uma atleta muito boa, campeã do Jungle Fight, tem dez vitórias seguidas, mas o jogo dela é bem parecido com o meu. Sou striker, meu negócio é ir para cima e meter a porrada", avalia a lutadora, que desde o ano passado mora no Rio de Janeiro.
Até o dia da luta, a preparação segue intensa. Em Londrina até o próximo dia 26, Jéssica treina com o preparador e lutador profissional de MMA Tiago Monaco com o objetivo de aprimorar o muay thai e o condicionamento físico. "A gente está pegando muito forte nessa parte física. A Jéssica tem um golpe muito forte e já tem um gás. Trouxemos ela para finalizar esse período de treinos, dando ênfase também na parte de luta em pé, afiar bem o muay thai dela", explica o londrinense, que é da mesma equipe de Jéssica Paraná Vale Tudo.
Contra Larissa, a paranaense vai em busca de sua 12ª vitória para colocar num cartel que inclui ainda três derrotas. Força de vontade ela garante que nunca vai faltar. "Se eu não tivesse passado por tanta dificuldade, talvez não desse valor a tudo que tenho. A lição que fica é que você pode conquistar o que quiser, basta ter força de vontade e nunca desistir. Se alguém que veio lá da roça conseguiu, qualquer um pode conseguir".


