O ano era 2009. O zagueiro André Galiassi exalava alegria. Era a melhor temporada da carreira dele. Tinha acabado de ser campeão romeno e iria disputar pela primeira vez a chave de grupos da principal competição de clubes do mundo, a Liga dos Campeões da Europa. Ele defendia o modesto Cluj, da cidade de Cluj-Napoca, terra do Conde Drácula, na Romênia. Era a grande chance de aparecer e quem sabe fazer um bom contrato para a temporada seguinte.
O time foi bem. Venceu o Roma, na Itália, empatou com o Chelsea, de Felipão, em uma partida em que o defensor brasileiro anulou o astro Didier Drogba, mas o Cluj não conseguiu avançar na competição. Ele até conseguiu um contrato melhor, mas a guinada na carreira não veio. Pelo contrário. Apareceram, as contusões e com elas o fantasma do desemprego.
Após a participação na Champions, Galiassi foi negociado com o Kasimpaza, da Turquia. Era o melhor contrato da carreira dele. Mas o jogador rompeu o músculo posterior da coxa direita e ficou fora de combate por duas semanas. Neste período, o time trocou de treinador e ele não estava nos planos do novo comandante.
Começava aí o drama do jogador. ''A janela estava fechada na Europa e no Brasil. Eu conseguiria jogar apenas a terceira divisão aqui, mas não compensava e resolvi esperar'', contou.
A janela abriu novamente, mas aí o grande obstáculo eram os quatro meses sem clube. Ninguém queria apostar em um jogador que não atuava há tanto tempo. ''Por mais que você tenha um currículo respeitável, os caras querem que você vá para fazer teste e você não quer se sujeitar a isso. Além disso, o empresário já não confia tanto e não paga as despesas da viagem e o salário também fica mais baixo''.
E lá se foi mais um semestre só treinando em Londrina, onde mora a família da esposa. Tentou o Londrina, mas foi vetado pelo técnico Cláudio Tencati. Estava quase certo com a Portuguesa para a Série B do ano passado, mas quando a decisão final chegou para a comissão técnica os meses sem clube pesaram para a negativa.
Essa longa espera por uma oportunidade, os meses sem receber salários e as expectativas frustradas foram pesando na vida de Galiassi. ''Chega um empresário em você, diz que tem clube interessado, você acredita e depois vê que não tem nada'', lembrou. ''Uma das coisas que me fizeram pensar em parar foi essa indecisão. Você acorda, vai treinar sozinho e quando volta para casa, vai correndo ver o celular, mas não tem ligação alguma. Vai ver o e-mail e não tem uma mensagem sequer'', rememorou, em tom bastante triste.
A falta de perspectivas foi aumentando o desejo de pendurar as chuteiras. Com esposa e filha, sabia que não poderia ficar muito tempo esperando essa chance que nunca vinha. ''Passa um dia, passa uma semana, um mês e nada aparece. A fonte estava secando'', disse.
A vontade de parar foi ficando maior do que a de ir atrás de um novo clube. Mas tentou uma última cartada e deu certo. Fechou contrato com o Concórdia Chigna, da Romênia. ''O salário não era aquilo tudo, mas como era um recomeço, eu aceitei'', contou.
O corpo sentiu o longo período parado e não suportou a carga de jogos e treinamentos. ''Não era a mesma coisa e começaram a aparecer as lesões. Nas férias de dezembro, no meio da temporada romena, ele voltou ao Brasil para tratar uma pubalgia. O clube trocou de treinador e mais uma vez ele não estava nos planos. Era o sinal que o ciclo no futebol havia chegado ao fim. ''Ainda tentei algumas coisas, mas ninguém joga por prazer. Tem que ganhar e bem. Quando comecei a tirar dinheiro do bolso para me manter como jogador, resolvi parar'', contou.
Microempresário
Enquanto tentava algum clube, foi fazendo cursos do Sebrae e decidiu trocar as chuteiras pelas festas. A sogra já trabalhava com eventos. Foi então que decidiu abrir a Galiassi Decorações, em fevereiro. Na fase boa, o jogador, que completou 32 anos ontem, chegou a receber mensalmente cerca de R$ 45 mil. Soube investir bem o dinheiro e foi o que sustentou a família durante os quase 16 meses sem trabalho. ''Não ganhei muito dinheiro, mas consegui administrar bem o que conquistei, tanto que fiquei um ano e quatro meses vivendo com o dinheiro que guardei. Não precisava jogar por R$ 1 mil, R$ 2 mil por mês para sobreviver. Por isso parei'', descreveu o agora microempresário, que abriu ainda uma empresa de limpeza de sofás e uma escola de patinação para a esposa.
Galiassi afirmou que não se arrepende de ter trocado de profissão e se diz realizado no futebol. ''Hoje penso muito nisso e sinto que estou realizado como atleta. Tudo o que meu pai sonhou, eu consegui. Disputei as quatro principais competições de clubes do mundo (Liga dos Campeões e Liga Europa pelo Cluj, e Libertadores da América e Sul-Americana pelo Bolivar)'', relembrou.

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