Carlos Alberto Garcia, o presidente do Londrina, sente-se derrotado. Em entrevista à Folha, semblante cansado, admitiu que não tem força para suportar a pressão que o cargo atualmente lhe imputa. Mediador de uma guerra sem heróis, que coloca no campo de batalha comissão técnica do Tubarão (o técnico Raul Plassmann e o supervisor Antonio Nunes, o Lico) versus Rádio Paiquerê AM (o proprietário JB Faria e o comentarista Flávio Campos), Garcia sonhava com dias de paz quando assumiu a presidência do clube.

Está frustrado, decepcionado. A dificuldade em ocupar um cargo burocrático, cheio de tribulações e dissabores, o fez sentir saudade do tempo que ganhava a vida jogando futebol. Parece decidido a renunciar ao sonho que lutou tanto tempo para se tornar realidade. Ser presidente do Londrina, o projeto de sanear as dívidas trabalhistas, implantar uma administração transparente, tratar o dinheiro do clube com lisura, nada disso, por enquanto, será capaz de dissuadí-lo da idéia. O desgaste de uma batalha inglória contra a emissora o deixou incrédulo quanto ao futuro do clube que aprendeu amar: ''Deste jeito, o Londrina acaba, a história está aí para contar''. Confira trechos da entrevista.

Folha - Por quê renunciar?
Garcia - Quando decidi aceitar o cargo, tinha o apoio de todo mundo (rádio inclusive), era uma coisa única convergindo em minha direção. Não pedi para ser presidente, nunca pedi um voto. Meu nome era unanimidade naquele momento. O Flávio (Campos) e o JB me disseram que o mais importante era o trabalho administrativo, pagar as dívidas trabalhistas do clube, que o resultado dentro de campo pouco importava. Mas não foi isso que aconteceu. Me senti traído. Não sei como o JB pode permitir que um funcionário dele (Flávio Campos) manipule a informação deste jeito. Ele chegou a dizer que o Thiago Matias escala e manda mais do que o Raul no time. É uma coisa maldosa. Então, prefiro sair agora, se não daqui a pouco estarei desmoralizado... Estou vendo que a coisa não vai dar certo. Eles perceberam que comigo não teria manipulação.

Folha - Então, as críticas são direcionadas?
Garcia - É uma coisa pessoal para falar que são fortes. Acho que as críticas são contra o sistema do Londrina. Uma vez é o Raul que perdeu o controle do time, outra é o Lico que agencia jogadores, depois sou eu que não tenho liderança. Eles pegam muito pelo lado pessoal. Pra você saber, no meu emprego (gerente regional de uma empresa de consórcios), lidero 200 vendedores e tenho mais 15 gerentes trabalhando comigo. Eles pegam do lado pessoal. O Flávio, por exemplo, chegou no meu diretor comercial e disse que ia me derrubar porque o técnico ele já tinha conseguido.

Folha - Mas você acha que esta pressão é tão forte a ponto de destruir seu sonho de ser presidente do Londrina?
Garcia - As críticas são pesadas demais, tumultuam o ambiente e não deixam ninguém trabalhar. Tenho família para cuidar, tenho amigos, a saúde, tudo isso para mim é mais importante.

Folha - Quais interesses que a Paiquerê teria em prejudicar o clube?
Garcia - O JB só pensa em vender propaganda, eles usam o Londrina só para vender. Eles só se interessam pelo lado financeiro e querem que o Londrina se dane.

Folha - O que você acha que o torcedor pode pensar da renúncia?
Garcia - Sinceramente não sei. Espero que eles me desculpem, me perdoem. Saio magoado e impotente porque não tenho condições de administrar. Não falo na questão financeira, falo na questão ética, da falta de respeito.

Folha - Você pode ser taxado de covarde...
Garcia - Covarde acho que não, talvez incompetente. A torcida sabe que nunca fui covarde.

Folha - Existe a possibilidade de reconsiderar?
Garcia - Só se Deus me der uma luz. Mas do jeito que a coisa está não dá. Eles (Paiquerê) precisam rever algumas condições, parar de manipular as informações. Do contrário, estou fora. Saio chateado, triste, porque sei que a tendência do LEC é acabar. Só sobrevive se o prefeito tocar. Nesta situação é inadministrável, e a história está aí para contar.

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