Pela primeira vez desde 1969, o Brasil poderá ficar sem pilotos na principal categoria do automobilismo mundial, a Fórmula 1. Felipe Massa, que já anunciou sua saída da Ferrari no final do ano, ainda não sabe se continuará e já cogita até encerrar a carreira na última prova deste ano, em Interlagos, caso não se acerte com algum outro time.
A entrada de Felipe Nasr, brasileiro destaque da GP2, também não é certa. Ele vive a expectativa de ser contratado para ser piloto de testes, mas ainda está longe de um acerto. Para especialistas, a possibilidade de não ter sequer um piloto na Fórmula 1 em 2014 é um reflexo de uma crise de formação de pilotos que o Brasil já vive há mais de 20 anos.
No início da década de 90, ainda tinha três fortes categorias de formação, as fórmulas Ford, Chevrolet e a 3 Sul-Americana, no País. Somadas as três, quase 100 pilotos participavam dos campeonatos naquela época. De lá para cá, o cenário mudou muito. Então pilares do automobilismo nacional, Ford e Chevrolet cortaram investimentos. Sobrou apenas a Fórmula 3 Sul-Americana, que por muito pouco não acabou no início desta década.
Diante da crise, o próprio Felipe Massa se viu forçado a ajudar. Em parceria com a Fiat, criou a Fórmula Futuro, mas a categoria que levava o campeão à escola de pilotos da Ferrari, durou apenas dois anos.
Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em março deste ano, Massa foi categórico, afirmando que o "automobilismo brasileiro passa por um problema sério e que a mentalidade precisa mudar", num recado direto à Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). Para ele, falta investimento na formação de novos pilotos.
Durante a última etapa do Campeonato Sul-Brasileiro de Kart, realizada em Londrina – terminou ontem, no Kartódromo Luigi Borghesi, – a FOLHA aproveitou para abordar o assunto com o presidente da Federação Paranaense de Automobilismo (FPA) e da Comissão Nacional de Kart, órgão ligado à CBA, Rubens Gatti. O dirigente admitiu que o País se ressente hoje de uma categoria intermediária, entre o kart e a Fórmula 3.
"Realmente falta uma categoria regular entre o kart e a Fórmula 3, de custo acessível. A CBA tem um projeto que está hoje no Rio Grande do Sul, a Fórmula Júnior, com pilotos de muito talento, que vieram do kart, e isso dá uma boa base. É um caminho interessante", observa Gatti.
Ele credita o problema crônico na formação de pilotos ao custo elevado. "O grande entrave hoje é a questão financeira. Infelizmente, o automobilismo é caro. Se não tiver uma estrutura de apoio, patrocinadores ou recursos próprios, para ir galgando os primeiros degraus da carreira, dificilmente o piloto vai chegar às categorias mais avançadas", argumenta. "A própria Fórmula 1 hoje é um grande negócio. Tem que ter o aporte financeiro para estar lá", continua o dirigente.
Gatti compara o Brasil a outras forças tradicionais do automobilismo de outrora para defender o sistema administrativo da formação brasileiro. "Muita gente questiona agora porque o Brasil pode ficar sem pilotos na Fórmula 1, mas eu faço uma pergunta: e a Itália, tem quantos lá? Há quanto tempo a Itália não tem um piloto de ponta na Fórmula 1, com uma equipe extremamente tradicional, como a Ferrari? E a Argentina, que é forte no automobilismo, quantos anos não têm um piloto lá? Então, isso não é um problema só do Brasil, o mundo inteiro forma bons pilotos, mas somente alguns conseguem estar lá", argumentou.
O orçamento para a disputa de uma temporada no kart, incluindo regionais e brasileiro, está na casa dos R$ 100 mil. E conforme, o piloto ascende de categoria, a conta fica mais salgada. Uma temporada da Fórmula 3 custa ao piloto aproximadamente R$ 500 mil.

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