Olhão, Portugal - A crise financeira que atinge Portugal não passou batida pelo futebol. Os investimentos caíram, assim como as receitas e até mesmo gigantes como o Sporting Lisboa já se veem ameaçados por causa das dívidas.
Benfica, Porto e Sporting, os três principais clubes portugueses, devem juntos mais de 400 milhões de euros (quase R$ 1,2 bilhão) em empréstimos bancários. Pior do que isso é o prazo para pagamento de pelo menos metade dela: um ano.
As médias de público estão caindo assustadoramente, fruto da falta de dinheiro da população, que precisa eleger outras prioridades e deixar a ida ao estádio em segundo plano. A média de público está quase 20% menor nesta temporada. Há jogos com ingressos baixos, mas as grandes equipes acabam cobrando valores altos, o que afasta de vez a torcida. No clássico de Lisboa, no último dia 10, quando o Benfica venceu o Sporting por 3 a 1, as entradas custavam entre 25 e 55 euros. Preços impossíveis de se pagar em meio à crise econômica do país, que tem um salário mínimo de 485 euros e 16,3% da população desempregada.
A Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) tenta assumir a negociação dos direitos televisivos o que pode fazer com que dobrem os valores, principalmente dos pequenos clubes.

Contas apertadas

''A crise é geral. Vem desde o governo até o cidadão mais pobre. Com os clubes não é diferente. Os apoios acabaram não sendo aqueles programados, caiu a receita com publicidade, renda de jogos'', apontou o presidente do Olhanense, Isidoro Souza.
Ele está na direção do clube da pequena Olhão, cidade de 45 mil habitantes no litoral sul de Portugal, há 30 anos. Desde 2007 é o presidente. Isidoro conta que nunca seu clube ficou com as contas tão apertadas como agora, quando a crise veio junto com a reforma do estádio para se adequar às normas da primeira divisão.
Com um orçamento de cerca de 2,5 milhões de euros por ano, o clube campeão português na temporada 1923/1924 consegue manter-se na elite desde 2009. No ano passado, a oitava colocação no Campeonato Português rendeu ao time uma vaga na Liga Europa, mas como o clube não havia se inscrito previamente, foi obrigado a abrir mão.
''O Olhanense atravessou um período de 34 anos na segunda divisão. Quando assumi tracei o objetivo de em três anos colocar o time na primeira divisão. Acreditei e fiz a cidade acreditar. Com muita luta, muito trabalho no primeiro ano bateu na trave e no segundo subimos'', lembrou. ''Temos muitas dificuldades se compararmos o nosso orçamento com equipes como Benfica e Porto, que investem 100 milhões de euros por ano cada, Sporting, com 60 milhões, e Braga, com 30 milhões de euros'', completou.
Ele reconhece que o clube, para se manter na elite, acaba tendo que ser vendedor de atletas e é encarado como muitos jogadores como uma ponte para um grande clube europeu, principalmente os brasileiros, como foi o caso do goleiro Fabiano, ex-São Paulo e Toledo, que foi eleito o melhor da liga no ano passado e foi vendido ao Porto.
Desde que subiu, na temporada 2008/2009, o Olhanense foi o clube que mais negociou atletas na elite portuguesa, o segredo para não se deixar abalar com a crise.
Para a próxima temporada, há a expectativa de uma parceria com grupos estrangeiros, inclusive um brasileiro. ''É um momento de crise, em que estamos em dificuldades financeiras, mas com situações que estamos vislumbrando, com parcerias que podem aparecer em outros países, penso que podemos contornar'', minimizou Isidoro.
Como não há limites de brasileiros em cada time em Portugal, os brasucas estão presentes em praticamente todas as equipes. Quase sempre são eles que movimentam o mercado. Os atletas do Brasil chegam desconhecidos, de graça e despontam nas equipes menores, antes de se transferirem para um dos grandes ou mesmo outros países. ''Captar jogadores jovens de equipes menores e de divisões menores do Brasil é uma alternativa. Aqui acolhemos de braços abertos os brasileiros'', disse Isidoro.

mockup