Criador da Jabulani culpa altitude
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segunda-feira, 07 de junho de 2010
Jamil Chade<br>Agência Estado 
Johannesburgo - Longe de Johannesburgo, num centro de pesquisas de uma universidade britânica, um cientista está assustado com a polêmica criada em torno de sua invenção. A bola Jabulani, da Adidas, tem motivado muita discussão, enquanto seu criador, o engenheiro Andy Harland, do Departamento de Tecnologia do Esporte da Universidade Loughborough, garante que o problema não é sua invenção, mas a altitude dos campos na África do Sul.
Jogadores da seleção brasileira foram os primeiros a partir para o ataque contra a bola da Copa do Mundo de 2010. Chamada de ''bola de supermercado'' e de outros adjetivos pejorativos, o novo produto da empresa alemã de material esportivo passou a ser o alvo preferido de muitos jogadores que disputarão o Mundial.
Na Inglaterra, os engenheiros de Loughborough que foram contratados pela Adidas garantem que não criaram nenhum produto fora dos padrões. Sua maior qualidade, segundo seus criadores, é de que nenhuma bola, desde o estabelecimento do futebol, é tão ''consistente'' como a Jabulani.
''Essa é uma bola que permite que os jogadores brilhem'', afirmou Harland, que chefiou todo o trabalho da equipe de cientistas de Loughboroughde, responsável pela criação do produto. ''Levamos quatro anos para desenvolver esse produto, que praticamente usou do mesmo avanço da física que a construção de um foguete'', disse.
Ironicamente, Harland é um goleiro em suas horas vagas na universidade. Mas é também considerado um verdadeiro artesão das bolas de grandes torneios. Ele criou as bolas usadas na Eurocopa, em 2004, na Copa de 2006 e, de novo, na Eurocopa de 2008.
Há 40 anos, a bola era feita de 18 pedaços de couro. A que rolará nos campos da África do Sul tem apenas oito e todos sintéticos. O resultado, segundo os engenheiros, é a primeira bola que, aconteça o que acontecer, manterá intocável seu formato esférico.
Dunga e vários outros jogadores chegaram a dizer que os criadores da nova bola nunca haviam entrado em campo em suas vidas. Harland admite que os primeiros testes ocorreram com robôs, que reproduziram faltas, passes, lançamentos e até cobranças de tiro de meta. Um túnel de vento também foi utilizado para desenhar a bola e garantir sua aerodinâmica.
O resultado dos testes mostrou que a bola percorria o ar de forma mais consistente e previsível que qualquer outra já utilizada. Eles ainda deixam claro que dezenas de jogadores e atletas testaram o produto antes de ele ser colocado no mercado. ''No fundo, o que tentamos criar é uma bola consistente e que permita que os melhores jogadores do mundo possam colocar em prática seu talento'', disse Harland. Ele rejeita a tese de que tentou criar uma bola que fosse imprevisível para dificultar a vida dos goleiros.
Nas alturas
O grupo de engenheiros se apressou em explicar para a Fifa que as críticas não deveriam ser feitas contra a bola, mas contra o fato de os campos onde as seleções atuarão estarem localizados na altitude. ''O que nos foi explicado é que, de fato, a bola tem menos oxigênio dentro dela. Num local de maior altitude, o resultado é que ela é mesmo mais rápida'', disse à Agência Estado o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke. ''Qualquer bola nessa altitude tem um efeito similar''.
A Fifa admite que, desde 1990, sente falta de gols nos Mundiais. A média é considerada baixa. Depois de pensar em várias opções, a cúpula da entidade máxima do futebol optou por duas estratégias para permitir maior ação durante as partidas: punir com cartão vermelho quem parte à caça dos talentos em campo e dificultar ao máximo a vida dos goleiros.
Nos bastidores, a Fifa toma as críticas como parte de um verdadeiro esquema de guerra da Nike, concorrente feroz da Adidas, por um mercado bilionário e que sofre de uma competição cada vez mais intensa. Oficialmente, dirigentes da Fifa dizem não poder culpar a Nike por incentivar críticas contra a bola. Mas, na entidade, todos sabem que esse é o jogo.


