Cresce pressão política e esportiva sobre criadores da Superliga europeia


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ainda sem anúncios concretos sobre possíveis punições e exclusões de campeonatos, o segundo dia pós-criação da Superliga dos clubes europeus alimentou a animosidade entre os times que endossam a iniciativa, ligas nacionais, federações e governos.

No Reino Unido, virou de fato tema de Estado. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse nesta terça-feira (20) que nenhuma ação estava fora da mesa para impedir a criação do torneio entre 12 dos times mais ricos do mundo, 6 deles ingleses. De acordo com ele, o governo estava explorando todas as opções, incluindo novas leis.

Impostos, revisão no modelo de propriedade, restrições de vistos e viagens também estão em discussão, de acordo com a imprensa britânica, para combater a ideia que os críticos veem como anticoncorrencial.

Johnson se reuniu com representantes da Federação Inglesa de Futebol, da Premier League e de grupos de torcedores, na qual declarou que o governo não permitiria a criação de uma "loja fechada" no futebol, informou seu gabinete em um comunicado.

"Ele reiterou seu apoio inabalável às autoridades do futebol e confirmou que elas contam com o total apoio do governo para tomar todas as medidas necessárias para pôr fim a esses planos."

O primeiro-ministro pretende ainda discutir o tema com líderes da Espanha e da Itália, os outros países com times na Superliga até o momento.

O vice-presidente da Comissão Europeia (Poder Executivo da União Europeia), o grego Margaritis Schinas, afirmou que não cabe ao órgão interferir no assunto: "Não é da competência da Comissão. A Europa reconheceu durante anos o direito das federações e da Uefa de decidirem de forma autônoma". O Reino Unido, fora da União Europeia após o Brexit, pensa diferente.

Após reunião com os 14 dos 20 clubes que não fazem parte da iniciativa, a Premier League disse que rejeitou "unanimemente e vigorosamente" os planos para uma Superliga e planeja tomar medidas contra as seis equipes (Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham) que se inscreveram para a competição.

"A Premier League está considerando todas as ações disponíveis para impedir seu progresso [da Superliga], bem como responsabilizar os acionistas envolvidos de acordo com suas regras", informou a liga.

Em uma declaração separada, a diretoria do Everton criticou os seis rivais por exibirem "arrogância absurda" e mancharem a reputação da primeira divisão da Inglaterra.

O jornal The Guardian publicou reportagem em que cita uma possível hesitação de Chelsea e Manchester City com o projeto da Superliga após a pressão dos últimos dias.

O técnico do City, o espanhol Pep Guardiola, também falou sobre o torneio e criticou elementos esportivos dele, como a inexistência de rebaixamento e as vagas cativas para times: "Não é um esporte se o sucesso está garantido ou se não importa quando você perde. Já disse muitas vezes que quero uma Premier League de sucesso, não apenas com uma equipe no topo".

"Os presidentes podem falar com mais clareza sobre os rumos do futebol. É desconfortável para nós [treinadores] porque não temos todas as informações. Posso te dar minha opinião, mas não mais que isso", completou, criticando também a Uefa por pensar apenas nos seus interesses.

Sem citar diretamente a possibilidade de exclusão de times e jogadores das competições organizadas pela entidade, o presidente da Fifa, o suíço Gianni Infantino, voltou a demonstrar desaprovação à ideia da Superliga. "Ou você está dentro ou está fora. Você não pode estar metade dentro e metade fora."

Já o presidente da Uefa, o esloveno Aleksander Ceferin, que havia se referido aos dirigentes rebeldes como cobras guiadas pela ganância, deixou uma porta entreaberta para a reconciliação nesta terça, ao dizer que há tempo para mudar de ideia.

Com as semifinais da Champions League e da Europa League (competições organizadas pela Uefa) marcadas para a próxima semana, o tempo poderá ser curto. Real Madrid, Chelsea, Manchester City, Manchester United e Arsenal, fundadores da Superliga, estão envolvidos nas semifinais das competições.

O único semifinalista da Champions fora desse grupo é o Paris Saint-Germain, controlado pelo Qatar. Seu presidente, Nasser al-Khelaifi, acenou para a entidade europeia. "Acreditamos que qualquer proposta sem o apoio da Uefa não resolve os problemas que a comunidade futebolística enfrenta atualmente, mas sim é motivada por interesses próprios."

Na noite de segunda (19), o presidente do Real Madrid e da Superliga, Florentino Pérez, defendeu a ideia de que o futebol precisa evoluir e se adaptar aos tempos atuais. "Sempre que há uma mudança, há pessoas que se opõem a ela ... E estamos fazendo isso para salvar o futebol neste momento crítico", disse no programa de TV espanhol El Chiringuito de Jugones.

O momento crítico é a pandemia de Covid-19, e as perdas causadas por ela, uma das justificativas para a criação da liga dissidente. "A audiência está diminuindo, os direitos [de transmissão] estão diminuindo e algo tinha que ser feito. Estamos todos arruinados. A televisão tem que mudar para que possamos nos adaptar", declarou Pérez.

"Os jovens já não estão interessados no futebol. Porque não? Porque existem muitos jogos de má qualidade e eles não estão interessados, têm outras plataformas para se distrair", completou.

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito
Assine e navegue sem anúncios [+]

Últimas notícias

Assine e navegue sem anúncios [+]

Continue lendo