Lúcio Horta
De Londrina
Final da década de 70. A novela ‘‘Pai Herói’’, exibida na Rede Globo, transformara-se num dos maiores sucessos da televisão brasileira. O difícil romance entre os personagens interpretados por Tony Ramos e Elizabeth Savala, e o mistério da morte de um tal Salomão Ayala, encantavam o público noveleiro, que não saía da frente da telinha no horário nobre.
Também ajudou no êxito o tema de abertura da novela. A música ‘‘Pai’’, de um jovem cantor cabeludo chamado Fábio Júnior, era executada enquanto diversas peças de dominó caiam umas sobre as outras. Pouco tempo antes, o mesmo rapaz apareceu – cantando e atuando – num seriado chamado ‘‘Ciranda Cirandinha’’, também da Globo. E emplacara nas emissoras de rádio outro sucesso: ‘‘Vinte e poucos anos’’.
Aprovado no teste de galã, Fábio Júnior passou a fazer um sucesso que não imaginava. Assim como hoje é comum encontrar crianças com nome de Sacha, por causa da filha da apresentadora Xuxa Meneghel, aquele final dos anos 70 acabou marcado pelos vários Fábios que nasciam em todas as partes do País. A influência do cantor na família dos novos brasileiros, pobres ou ricos, era evidente nos cartórios de registro civil.
Se alguém duvida dessa teoria – quase uma ‘‘inutilidade sociológica’’ –, logo muda de idéia quando passa os olhos na lista dos convocados pelo técnico Wanderley Luxemburgo para a Seleção pré-olímpica, que está concentrada em Londrina. Dos 20 convocados, todos nascidos a partir de 1º de janeiro de 1977, quatro são Fábios. Em números: expressivos 20% do total. E, se for para forçar um pouquinho a barra, tem ainda um quinto, o Fabiano, um ‘‘quase-Fábio’’.
O caso do atacante Fábio Júnior, do Roma, é o mais evidente. Mineiro de Muchuaçu, o jogador de 22 anos recebeu dos pais o nome de Fábio Júnior Pereira – ou seja, o ‘‘Júnior’’ vem antes do sobrenome. Além disso, o pai dele se chama Agnaldo. ‘‘Não sei se o meu nome é por causa do cantor. Minha mãe esconde um pouco esta história, não fala nada. Mas pode realmente ter sido por causa do cantor’’, confirma o atacante. Para ele, o fato de seu nome ser confundido com o do artista até pode ter ajudado um pouquinho, no começo da carreira. ‘‘Mas hoje não tem mais nada disso’’, conforma-se.
Já o zagueiro Fábio Alves da Silva, 21 anos, o Fábio Bilica, não tem dúvidas. ‘‘Na época o Fábio Júnior estava fazendo muito sucesso e foi por isso mesmo que me deram o nome de Fábio. Eu até conheço alguns outros, da minha geração. Tem muito Fábio por a풒, confirma. Paraibano de Campina Grande e jogador do Venezia, da Itália, Bilica revela que não tem problema algum com o nome. ‘‘Pelo contrário, gosto muito. Foi bem escolhido’’, afirma.
O goleiro Fábio Costa, 22 anos, baiano de Camaçari e que defende a equipe do Vitória, também não tem do que reclamar. Tanto que seu filho, de pouco mais de um ano de idade, herdou o nome do pai: Fábio Costa Filho. Mas ele garante que a influência do cantor, desta vez, não pesou quando nasceu. ‘‘Na verdade foi por causa de meu tio, que gostava do nome e sugeriu a minha mãe. Ela gostou e deu certo. Mas não acho que tenha alguma coisa a ver com o cantor Fábio Júnior’’, acredita.
O outro Fábio da Seleção é o Fábio Aurélio Rodrigues, 20 anos, lateral do São Paulo e que ontem não participou da entrevista coletiva no Hotel Crystal para cumprir um compromisso importante: ir para São Carlos, onde nasceu, se casar. Já o colega dele de clube, o meio-campista Fabiano Pereira da Costa, 21 anos, achou loucura dizer que a escolha do próprio pudesse ter qualquer influência do cantor. ‘‘Não deve ter nada a ver. Mas minha mãe nunca comentou por que escolheu este nome’’, desconversou.Jogadores do time pré-olímpico carregam o ‘legado’ de pais fãs de um certo artista que fazia sucesso no final da década de 70
Milton DóriaSÓ COINCIDÊNCIA?Fábio Bilica e Fábio Júnior: dos 20 convocados por Wanderley Luxemburgo para a Seleção pré-olímpica, quatro são ‘Fábios’: expressivos 20% do total