CPI quer mudar o futebol brasileiro
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domingo, 06 de janeiro de 2002
Agência Lancepress! 
Rio de Janeiro - A CPI do Senado promete fazer uma revolução ainda maior do que punir cartolas: a transformação do futebol brasileiro em atividade comercial. No futebol inglês, que já passou pela mudança, houve um crescimento financeiro. Mas os títulos e vitórias em campo continuam a ser o fim principal dos clubes. A proposta da CPI, que deve ser editada como Medida Provisória, é obrigar os clubes a criarem sociedades comerciais para administrá-los.
As regras são similares às impostas às empresas de Sociedade Anônima (S/A). Os clubes vão ter de estabelecer cotas de acionistas, publicação de balanços e agir segundo a lei de comércio, entre outros requisitos. No futebol inglês, o modelo é parecido, mas os clubes já avançaram no processo. Em 1996, 15 clubes lançaram ações na bolsa. Depois de um sucesso inicial, houve uma queda no valor de alguns clubes. Os investimentos foram contidos, já que os lucros decepcionaram.
Em seu livro The Economist of Football, o analista John Goddard lembra que os clubes seguem priorizando as vitórias esportivas, o que os leva a usarem o dinheiro em contratações. No Brasil, a pressão de torcedores deve levar os dirigentes a agir da mesma forma. O exemplo inglês é revelador: apenas cinco, dos 96 clubes, não tiveram déficit no último ano. O dinheiro ganho foi gasto com contratações.
E o fim do passe no Brasil assim como a Lei Bosman na Inglaterra não acaba com as transferências milionárias de jogadores. No futebol europeu, essa ainda é a principal fonte de receita e despesa, apesar do crescimento de recursos provenientes da televisão e do licenciamento. Ou seja, haverá uma revolução, mas não tão radical quanto se pensava.
Transição Os clubes brasileiros não estão preparados para se enquadrar na lei proposta pela CPI do Senado. Essa é a avaliação do consultor esportivo da Deloitte & Touche, Alexandre Loures, que defende um processo de adaptação. Para ele, haveria uma quebradeira geral. Os autores da lei já avisaram que vão permitir um período para que os clubes modifiquem as suas estruturas organizacionais. Há bastante o que mudar, já que, só com a previdência, a dívidas dos clubes chega a R$ 250 milhões. Mas Loures vê outros problemas. Para ele, o modelo das Sociedades Anônimas, adotado pela CPI, não é ideal no momento.
Não sei se é constitucional a publicação de balanços. E, nas bolsas, o valor do clube iria ficar sujeito às oscilações do mercado. Para Loures, o exemplo inglês pode ser seguidos pelos brasileiros na área de obtenção de receitas. Os clubes nacionais são muito dependentes de cotas de televisão 70% das receitas, excluindo as transferências de jogadores.
Mudança A revolução no futebol inglês começou após a exclusão dos clubes nacionais dos campeonatos europeus, em 1985, depois da morte de torcedores na final da Liga dos Campeões entre Liverpool e Juventus. Em meio a uma crise sem precedentes, iniciou-se uma reestruturação do futebol. A primeira medida foi reformar os estádios e priorizar a segurança. Para isso, foi vital o relatório Taylor, que estabeleceu um planejamento para a mudança.
Ao excluir a violência dos campos, os dirigentes conseguiram trazer de volta o interesse pelo campeonato nacional. E, a partir daí, os clubes começaram a obter receitas para se recuperar financeiramente, com cotas de televisão maiores. Esse processo se completou com o lançamento das ações de clubes na bolsa. O exemplo é o Manchester United, clube mais rico do mundo.


