CORRENDO PELA VIDA
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sábado, 28 de junho de 2014
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
"Hoje, o ciclismo é tudo em minha vida". À primeira vista, a citação pode parecer apenas mais uma declaração de um competidor nato, em êxtase por mais uma conquista. Mas o atleta em questão é Francisco Ferreira da Silva Neto. E para ele a frase tem um significado muito maior. Retrata exatamente o momento vivido pelo garoto e dá a real noção do que o esporte representa em sua vida.
Não é preciso nem conversar muito com ele para entender tudo. O olhar e o jeito tímidos parecem querer esconder o sofrimento de alguém que aos 14 anos se esforça para curar feridas que talvez jamais se fecharão. Companheira de todos os dias, a bicicleta tornou-se a melhor amiga. A companheira que lhe ajuda a superar a perda da mãe, que lhe deixou há três meses, e a ausência do pai, que está preso. Segundo de uma fila de quatro filhos, o ciclista é o único que mora com a avó paterna, em Cambé, enquanto todos os seus irmãos vivem com a materna.
A avó, a bicicleta e os amigos da equipe do Clube de Ciclismo de Londrina (CLC) são seus pilares. "É o que tem me ajudado bastante", define, em poucas palavras. E o destino que se apresentou cruel logo cedo começa a ganhar contornos mais felizes, graças ao esporte. Ao falar das conquistas, logo o semblante triste dá lugar a um sorriso. "Foi muito impressionante. Me esforcei bastante por tudo isso e consegui", comemora o ciclista, deixando escapar um momento raro de empolgação.
Olhar para as medalhas conquistadas com muito suor no Campeonato Brasileiro e na fase estadual dos Jogos Escolares do Paraná (Jeps) lhe ajudam a esquecer um pouco os obstáculos da vida. E viraram também inspiração para seguir firme, na luta por um futuro melhor. "Eu quero mais", diz, determinado, o garoto.
Essa determinação já lhe rendeu a classificação direta para defender a sua cidade natal, Cambé, e o Colégio Estadual Dom Geraldo, onde ele cursa a 6ª série do fundamental, na fase final dos Jogos Escolares da Juventude, no início de setembro, em Londrina. Graças às medalhas de ouro na prova por pontos e prata no circuito, que só vieram também por conta de um bom trabalho de equipe, segundo o técnico Sandro Marcelo Rocha. Mas esta não foi a primeira vez que Francisco brilhou. No início deste mês, ele já havia faturado medalha de prata na prova de perseguição individual no Campeonato Brasileiro, em Maringá.
Rocha, que já treinou outros grandes nomes do ciclismo nacional, como Gregolry Panizo, Murilo Ferraz, Maurício Knapp e Joel Cândido do Prado, vê no pupilo potencial suficiente para tornar-se um ciclista completo no futuro. "Ele é um sprintista (ciclista especialista em arrancadas de alta velocidade), mas no Brasil é preciso se defender para tudo, pois as grandes equipes exigem isso. E ele está sendo trabalhado para quando chegar a transição para o adulto, ter carcaça (bagagem) para entrar e se manter em uma equipe grande", argumentou o ex-ciclista, que virou treinador há mais de dez anos e hoje trabalha com mais de 40 adolescentes na equipe londrinense.
E mais do que treiná-lo para as competições, o CLC tem feito a diferença na vida do ciclista de outra forma. "O foco do nosso trabalho é formar cidadãos. E o caso dele é uma bomba-relógio. Imagina se não tivesse o esporte. Ele tem cabeça boa, mas nessa idade, uma simples má companhia pode colocar tudo a perder", pondera o técnico.
Mas no que depender do garoto, esse risco não existe. Ele promete continuar firme. E garante estar determinado a brigar por uma medalha em Londrina, o que poderia ser um trampolim para voos maiores. "Meu foco são as Olimpíadas. Vou me preparar para fazer um bom papel e brigar por títulos", promete. Por ele e por alguém bastante especial, que jamais será esquecida. "E também pela minha mãe, que sempre me apoiou".


