Contrapartida do Feipe provoca discussão
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domingo, 02 de novembro de 2014
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
Há alguns anos, ela é a pivô de uma briga que parece interminável no esporte londrinense. Alguns gestores de modalidades esportivas de Londrina não podem nem escutar falar da contrapartida, parcela de recursos próprios que a associação que pretende conveniar-se com a Prefeitura deve apresentar, como parte do pré-requisito para ter seu projeto aprovado. O dinheiro se aplica na execução do objeto do convênio, feito através do Fundo Especial de Incentivo a Projetos Esportivos (Feipe), programa criado pela Prefeitura de Londrina em 2002 para apoiar o esporte da cidade.
E entender porque isso acontece é muito simples. O dinheiro para a contrapartida deve vir do patrocínio da iniciativa privada. O problema é que as más gestões recentes de modalidades esportivas em Londrina colocou a cidade em uma crise esportiva sem precedentes. Nunca foi tão difícil na história do esporte local encontrar empresas dispostas a investir.
A situação é tão crítica que a falta de incentivo da iniciativa privada desencadeou uma guerra aberta entre gestores e Prefeitura. De um lado, os responsáveis pelas modalidades brigam pela diminuição da porcentagem cobrada atualmente: 50%. Uma ala mais radical defende até o fim da contrapartida. "Sou totalmente contra, mas se for para ter, que seja baseada no que todo mundo tem conseguido. 25% seria o ideal", defende a coordenadora do futsal feminino, Vanda Sanches. "Na minha visão, teria que cair pela metade. Não sou favorável o governo bancar tudo, mas eles têm que ver que somos uma estrutura amadora", reforça o coordenador do futebol feminino, Cláudio Fontes.
Mas a Prefeitura está irredutível. Por enquanto não há nem abertura de discussão. A alegação é de que não tem condições financeiras e nem faz parte da filosofia da atual administração bancar uma parte maior, muito menos 100% das despesas das equipes. O que o poder público não quer é acabar como réu em ações trabalhistas, como aconteceu em projetos recentes. "A Prefeitura responde até hoje, não só do vôlei (masculino, o mais recente), como de outros lá de trás, como o basquete. Justamente porque a Justiça entende que o maior mantenedor é o poder público", diz o diretor técnico da Fundação de Esportes de Londrina (FEL), Jéfferson Del Fraro.
Do lado da Prefeitura, os atuais dirigentes defendem que o poder público seja apenas um apoiador das modalidades de alto rendimento, e não um mantenedor. "O entendimento da Fundação é de que é esporte profissional", alega Ricardo Silva, coordenador de convênios da FEL. "O objetivo da Prefeitura é atingir a parte social da cidade investindo na formação, e apoiar o alto rendimento", reforça o coordenador, citando a filosofia adotada pelo prefeito Alexandre Kireeff desde o início de sua gestão.
E pensar que o percentual exigido hoje ainda está longe de ser o maior. Até dois anos atrás, a contrapartida era de 100%, mas era possível incluir objetos de parceiras, como bolsas de estudo. Apesar de não tão distante, os tempos eram outros. O esporte ainda conseguia manter-se graças à Sercomtel, empresa de telefonia que ajudava a bancar praticamente todas as modalidades de alto rendimento.
Para o Feipe de 2012, por exemplo, seis modalidades (handebol, basquete, futsal e vôlei masculinos, e o futsal e vôlei femininos) dividiram pouco mais de R$ 1 milhão do Feipe destinado a projetos de alto rendimento. E boa parte do dinheiro da contrapartida vinha da telefônica londrinense um dos motivos que a levou para uma crise profunda, da qual ainda tenta se recuperar e das universidades, que também investiam no esporte.
Mas o momento agora é bem diferente. Hoje, esta verba é três vezes menor. A única modalidade de alto rendimento que ainda pode "se gabar" de ter um bom parceiro é o atletismo. Com o dinheiro que vem da Caixa Econômica Federal R$ 300 mil anuais mais os R$ 260 mil que recebe da Prefeitura, a equipe passa apertado, mas consegue se virar para honrar seus compromissos.
Não é assim em outras modalidades de alto rendimento. Em 2014, o futebol e o futsal femininos sofrem para conseguir se manter vivos. Com o pouco dinheiro que vem da Prefeitura R$ 60 mil para cada/ano e a dificuldade para conseguir patrocínios junto à iniciativa privada, os gestores muitas vezes acabam até se endividando para honrarem os compromissos ao final da temporada.
Nada disso, no entanto, parece comover os diretores da FEL. O medo de novas ações trabalhistas fala mais alto e não deixa a atual diretoria sequer cogitar baixar o percentual cobrado atualmente. "É muito mais fácil hoje aumentar a contrapartida do que diminuir", aponta Del Fraro. "Hoje o pensamento é esse, a gente não pensa em mudar. Quiçá aumentar, mas aí precisa ter resposta da sociedade. Não posso acordar amanhã, chegar aqui e aumentar para 100%", reforça o presidente da FEL, Márcio Corrêa.


