Leia a seguir o depoimento de Niclevicz escrito por ele assim que retornou ao acampamento-base do K2. O depoimento foi divulgado no site www.sargamatha.com.br.
‘‘Meus amigos que seguem o K2 Online! Estou aqui, novamente em minha barraca do acampamento-base, a 5.100m de altitude, feliz, embora escrevendo apenas com uma mão, enquanto lá fora a neve continua a cair. Nevou forte hoje, mais de 20cm aqui no base. A paisagem é cinza, triste.
Por que escrevo apenas com uma mão? Porque tenho os dedos congelados na outra. Foi uma noite fria após o cume, que passei dentro de uma greta (rachadura no gelo), a 8.400m de altitude, sozinho. É, coisas que só havia visto em filme, lido em livro, aconteceram comigo. Mas não foi só isso, muito mais aconteceu nesta nossa conquista do K2.
Parti do base dia 26, junto de nossos quatro carregadores de altitude. Meu amigo meteorólogo Daní Ramires dizia: ‘‘Quatro dias de ligeira melhora no tempo, talvez boa oportunidade para tentar chegar ao cume’’. Eu acreditei! Deu certo Daní, muchas gracias! Assim, com quatro dias, no primeiro saltei o acampamento 1 e fui direto ao acampamento 2 (6.700m).
No segundo dia, 27 de julho, Abele Blanc e Marco Camandona partiram de madrugada, direto do base para me encontrar no acampamento 3 (7.450m). Dia difícil este, muita coisa deu errado. Logo depois de eu partir do acampamento 2 com os carregadores aconteceu um acidente. Um deles foi atingido por uma pedra na cabeça. Mesmo estando de capacete, delirava, chorava. ‘‘Meu Deus, logo agora’’, pensei! O tempo melhorava e eu não queria descer. No final, dois dos carregadores acabaram descendo dos 7.100m levando o colega ferido. Ficamos apenas com um outro carregador, mas com pouquíssimos mantimentos.
Nos seguiam, contentes, Ivan e Fabrizio, da Expedição Americana, dizendo que, se quiséssemos, poderíamos usar uma das três barracas que dias antes haviam montado a 7.300m. Chegamos lá e nenhum vestígio das barracas – todas haviam desaparecido abismo abaixo, levadas por uma avalanche.
Enquanto nossos amigos estavam desconsolados, subimos mais um pouco, até os 7.450m, o verdadeiro lugar do acampamento 3. O tempo ficava cada vez melhor. Dia 28 de julho seguimos entusiasmados – Abele, Marco e eu – rumo aos 8 mil metros. Terreno virgem à nossa frente, sem cordas fixas, sem uma única pegada. Aos 7.700m tentamos encontrar seis garrafas de oxigênio que abandonamos em 1998 dentro de uma barraca. Busca em vão. Isso significava que iríamos tentar terminar a escalada sem o uso do oxigênio artificial. Algo muito difícil!
A 7.950m de altitude montamos nosso acampamento 4. Às 23 horas do dia 28 de julho eu iniciava o ataque final junto do carregador Meherban Shah, um dos quatro paquistaneses que já haviam escalado o K2. No final do Pescoço da Garrafa, 8.300m, era já a décima vez que ele reclamava do frio. Assim, acabou voltando ao acampamento 4. Mais tarde, às 4 horas e 30 minutos, Abele e Marco se juntavam a mim, a cerca dos 8.400m. O sol nos esquentava na Travessia do Japonês, enquanto um muro de gelo (serac) de quase 80 metros de altura ameaçava despencar sobre nossa cabeça.
Por fim, o verdadeiro cume do K2, lá no fundo, muito longe. Eram 15h30m, muito tarde. A neve, sempre na altura do joelho, atrasava nossa progressão. Além do mais, estávamos sem o uso do oxigênio artificial. Mas pelo menos o tempo estava ótimo, sol num céu azul, sem vento. Que maravilha, tínhamos que continuar! Continuamos, para chegar, Abele Blanc, Marco Camandona e eu, um atrás do outro, às 18 horas e 30 minutos do dia 29 de julho, no alto dos 8.611 metros de altitude.
Abraços emocionados!
Conseguimos, meu Deus, conseguimos!!!
Às 19 horas começamos a longa descida, sob um lindo entardecer. Longa e terrível descida! No atrapalhar do ar rarefeito, Marco e eu perdemos a lanterna. Abele iluminava nossa descida na escuridão, mas uma lanterna para três era pouco. Abele e Marco se adiantam. Eu me vejo sozinho, a 8.400 m de altitude, e procuro abrigo numa greta. Passo a noite tremendo de frio, a 30 graus negativos. Marco e Abele chegam a nossa barraca às 4 da madrugada.
Às 7 horas Abele se espanta e diz ‘‘um fantasma’’. Era eu quem também conseguia chegar ao acampamento 4, vivo. Nós três descemos muito cansados ao base. Estamos todos bem. Tenho princípio de congelamento em três dedos da mão esquerda.
Nada grave.’’

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