Assembleia que elegeu Rogério Caboclo (o segundo na fileira) presidente da CBF a partir de 2019: conivência dos clubes e federações continua
Assembleia que elegeu Rogério Caboclo (o segundo na fileira) presidente da CBF a partir de 2019: conivência dos clubes e federações continua | Foto: Leandro Lopes/CBF


Em março, Rogério Caboclo já havia conseguido o apoio de 25 das 27 federações estaduais, um número que inviabilizaria a formação de uma chapa de oposição ao cargo máximo do futebol brasileiro, o de presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). No último dia 17 de abril, confirmou todos os prognósticos e como candidato único se elegeu para os próximos quatro anos (2019-2023).

A eleição do atual diretor-executivo da entidade mantém um ciclo de nomes do mesmo grupo político que já dura desde 1989, quando Ricardo Teixeira assumiu a presidência. Essa sina de dirigentes começou por força maior de João Havelange, que era presidente da Fifa naquele ano e auxiliou na eleição de Teixeira, seu genro à época.

Foram cinco mandatos, com o último sendo interrompido em 2012 após uma renúncia motivada por uma série de denúncias por corrupção – que estão sob investigação até hoje – e a alçada de José Maria Marin ao poder. O ex-governador biônico de São Paulo, que era um dos vices de Teixeira, assumiu e ficou até 2014, quando passou o cargo a seu braço direito, Marco Polo Del Nero, então presidente da Federação Paulista.

Marin foi preso em 2015, na Suíça, e atualmente está detido em um presídio do Brooklyn, nos Estados Unidos. A acusação contra o ex-presidente que dá nome ao prédio da CBF, no Rio de Janeiro, é por fraude, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha por um esquema de recepção de propina pela venda exclusiva de direitos de transmissão de torneios e por acordos de marketing por toda a América Latina.

Del Nero, por sua vez, não foi preso, já que não saiu do Brasil desde que sofreu acusações semelhantes a de seu antecessor. O fato de não acompanhar o Brasil à Copa América do Centenário, em 2016, realizada nos EUA, virou piada – já que se fosse, provavelmente teria o mesmo fim de Marin. A CPI do Futebol e o FBI reuniram denúncias contra ele e enviaram para a Fifa, que suspendeu o ex-presidente em dezembro e pode bani-lo definitivamente já nas próximas semanas.

Mesmo com todas as denúncias por corrupção, Caboclo teve em Del Nero seu mentor – o acusado chegou a declarar apoio oficial ao candidato. Logo após ser eleito, desejou sorte em todos os "desafios" a quem chamou de 'presidente'. "Ao presidente Marco Polo Del Nero, ausente do processo eleitoral, desejo todo o sucesso nos desafios que enfrenta hoje." Marco Polo não é oficialmente presidente da CBF desde sua suspensão, o cargo atualmente pertence ao Coronel Nunes, vice mais velho e presidente da Federação Paraense de Futebol.

Oposição quase nula
Apenas três clubes – entre todos os das séries A e B e federações estaduais – não votaram no candidato. Foram eles o Corinthians – único que demonstrou posição totalmente contrária ao processo, principalmente pelos votos dos clubes terem menos peso que os das federações –, o Flamengo, que se absteve da decisão, e o Atlético-PR, que se declarou ausente e não esteve na eleição.

Em seu primeiro pronunciamento oficial pós-eleição, Caboclo se declarou fiel aos que o apoiaram. "Estamos plenamente comprometidos com quem nos apoiou. Estabeleço com federações, clubes, diretoria e funcionários um pacto, uma obrigação. Estaremos cada vez mais juntos".

Contrasenso
A manutenção da dinastia do mesmo grupo se mantém e a decisão pelo total apoio por parte dos clubes e federações é tratada como contradição por quem vive no meio do esporte. "Eles vêm tendo uma atitude contraditória há algum tempo, reclamam 'em off' e concordam 'em on'. Por exemplo, nós ficamos em um prédio a uma quadra da Federação Paulista. [Alguns clubes] Passaram aqui para reclamar da limitação de idade de 23 anos [para inscrições no Campeonato Paulista da Segunda Divisão], aí conseguimos ganhar na justiça e o que eles fizeram? Não inscreveram", afirmou Rinaldo Martorelli, ex-goleiro do Palmeiras e atual presidente do Sindicato dos Atletas de São Paulo, que deixou claro não ter nada contra a pessoa de Rogério Caboclo, mas é contrário aos discursos de pessoas que não têm comprometimento com o futebol. "Como que eu faço? Eles [os clubes] se acovardam sempre", concluiu.

* Sob a supervisão do editor interino de Esportes Diego Prazeres

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