São Paulo, 16 (AE) - A Medida Provisória 2.011, editada em outubro pelo governo federal, que proíbe uma mesma empresa controlar mais de um clube, na tentativa de evitar a formação de cartéis, tem causado polêmica. Em meio a um conflito de interesses e muita dúvida de todas as partes envolvidas, uma comissão, com 14 parlamentares, entre deputados federais e senadores, foi formada, desde quinta-feira, para discutir o assunto. O presidente é o deputado José Perrella (PFL-MG), também presidente do Cruzeiro. "Queremos um debate amplo e uma decisão democrática", disse Zezé Perrella, como é conhecido. "Vamos ouvir a Fifa, o Pelé, o Ricardo Teixeira (presidente da Confederação Brasileira de Futebol) e todos os segmentos que estão envolvidos." A MP, que está na pauta da convocação extraordinária do Congresso para ser transformada em lei, não será votada pelos parlamentares tão cedo, segundo Perrella. A tendência, por enquanto, é apenas sua reedição pelo governo, no dia 29, sem alterações. Uma discussão bastante ampla já estava sendo pregada por especialistas em business esportivo do País. "Se, quando as leis são claras, já existe confusão, a situação fica mais complicada agora", opina o marketeiro esportivo Marco Aurélio Klein, que fala em "amadorismo" do ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, na elaboração da MP. "Este assunto deve ser discutido de uma maneira mais global", emenda a economista Elena Landau, ex-diretora do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e atualmente consultora do Atlético-MG. Confusão - O texto da MP diz que "fica proibido que mais de uma entidade de prática esportiva seja controlada, gerenciada ou de qualquer forma influenciada em sua administração por idêntica sociedade civil de fins econômicos, incluindo sua controladora e controlada ou por idêntica sociedade comercial admitida na legislação em vigor". "Que tipo de influência é essa?", indaga Elena Landau. Não são poucos os que não conseguem entender a MP. Na quarta-feira, o deputado federal Agnelo Queiroz (PC do B-DF) entrou com um pedido na Procuradoria Geral da República de ajuizamento de ação contra a Parmalat e a Hicks Muse Tate & Furst por considerar que há desrespeito à lei. A Parmalat, por exemplo, tem contrato com Palmeiras e Juventude há alguns anos e, segundo assessores jurídicos do governo, a medida não é retroativa, ou seja, só vale a partir de sua edição
em outubro. A Hicks Muse tem situação idêntica, com Corinthians e Cruzeiro. Nacionalismo - "Parece mais uma questão ideológica, cheia de nacionalismo, que quer combater a entrada de grupos norte-americanos no País", afirma Elena Landau. A economista concorda com a proposta do governo de evitar a manipulação de resultados, mas, acredita que a MP, de certa forma, "sufoca" o esporte brasileiro. Quem também não gostou da MP foi o deputado federal Luciano Bivar (PSL-PE), presidente do Sport, do Recife, que não faz parte da comissão do Congresso. "A medida provisória traz sempre um efeito nefasto", diz. Na verdade, Bivar teme que os clubes menores, principalmente os da região Nordeste, sejam prejudicados com a limitação da entrada de empresas no futebol. Segundo ele, o Sport já poderia ter acertado um contrato de US$ 200 milhões com um grupo de investidores estrangeiro não fosse a MP. "O governo está acabando com o futebol", protesta.