CONFINS DO FUTEBOL - Romênia abaixo de zero
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sábado, 07 de julho de 2007
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
O mês de maio foi o mais frio do ano no Brasil. Registrou temperaturas entre 2 e 10 graus nas principais capitais brasileiras e você já deve ter reclamado bastante do frio. Mas você já se imaginou numa temperatura de 22 graus abaixo de zero? E jogando futebol sobre um campo tomado pela neve? Pois foi isso que o atacante Roberto Bessa, 26 anos, encontrou ao desembarcar na Romênia, no fim de janeiro, para defender o Cetatea Suceava, da Segunda Divisão, que fica no Sudeste da Europa.
Roberto é um exemplo típico de quem cansou de se sujeitar às mazelas do pobre futebol do interior brasileiro e decidiu desbravar o mundo. Depois de passar por Caxias-SC, Veranópolis-RS, Londrina e Portuguesa Londrinense, decidiu que era hora de partir, trocar os famosos pés de frango da Vila Santa Terezinha pelas batatas romenas - alimento que segundo ele está presente em quase todos os pratos do país. ''Pintou a proposta e vi que era hora de partir, de aceitar o desafio de jogar fora do País, Era a minha chance de ganhar um pouco mais que eu ganhava aí no Brasil'', contou.
Além de ganhar pouco - seu salário na Lusinha, o último clube em que jogou no Brasil, era de R$ 500 - ele convivia com os calotes. Dos quatro clubes que defendeu na carreira, dois, Londrina e Caxias-SC, não honraram seus compromissos. ''No Caxias não recebi nada. O Londrina deve R$ 1,2 mil referentes a dois meses de salários'', revelou.
Na Romênia, o salário não era astronômico, mas bem maior do que as perspectivas lhe mostravam no Brasil. Nos quatro meses em que defendeu o Cetatea Suceava faturou US$ 6 mil - cerca de R$ 12 mil -, média de R$ 3 mil por mês. ''Isso fora os bichos por partidas, que eram de US$ 400 por vitória e US$ 250 por empate. Às vezes, quando fazia gols, o presidente me dava um dinheiro por fora'', disse.
Mas a vida dele não foi nada fácil. Saiu do verão do quente Norte paranaense e desembarcou na Romênia debaixo de neve sem saber uma palavra sequer em romeno. Nem ao menos o inglês ele sabia. ''Não entendia nada o que eles falavam, mas fui me acostumando'', disse, lembrando dos momentos ruins nos primeiros dias em Suceava.
Ele contou que era excluído pelos companheiros de time por não conseguir se comunicar. ''Eles me isolaram um pouco, até porque eu não falo inglês, mas dois jogadores ficaram comigo no quarto, me explicavam as coisas e me ensinaram um pouco do romeno. Aí ficou até melhor a adaptação aqui'', revelou.
Roberto não teve tempo nem de se ambientar com a neve. Chegou e logo de cara já foi relacionado para um amistoso, em um campo coberto de neve. ''Me queimaram bastante, mas quando fui para os treinamentos comecei a fazer gols e eles (os jogadores do clube) passaram a conversar comigo e tocar a bola para mim'', comentou. ''Quando acabou o inverno pude jogar melhor''.
Sopa e propostas - Roberto conseguiu se adaptar ao frio e à cultura local. Aprendeu a comer sopa todo dia no almoço e a fazer os gols que podiam lhe garantir um salário maior e um pulo para um time maior. Os oito gols em 16 partidas chamaram a atenção de outros clubes.
Hoje, treina no Dínamo Bucareste, atual campeão romeno. ''Estou esperando meu empresário chegar da Itália pra definir tempo de contrato e salário, mas acho que é coisa boa, pois o Cetatea ofereceu o dobro para eu ficar e o meu empresário não aceitou'', adiantou.
Com o novo salário, ele espera ajudar ainda mais a família em Hortolândia (SP) e ter tranquilidade para seguir lutando em busca de seus sonhos. ''O meu maior sonho já se concretizou, que era ser jogador de futebol. Agora, o que vier pela frente vai ser fruto de um trabalho árduo, mas gratificante. Espero jogar em um clube grande aí no Brasil ou até mesmo no centro da Europa, onde poderei aparecer'', concluiu. (T.M.)


