Participar de uma ultramaratona, certamente, não é para qualquer um. A modalidade, como o próprio nome sugere, eleva a dificuldade das maratonas ao extremo, com distâncias acima dos 40 km, mas que podem passar dos 200 km, além de locais repletos de dificuldades. Desertos, montanhas, terrenos onde poucos pensariam em correr e que colocam à prova toda a resistência e perseverança de quem se arrisca nesses desafios.
Mas o que acontece com o corpo de um atleta depois de uma prova tão difícil e desgastante? Como se preparar de maneira eficiente? São questões que fazem parte de um estudo que está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em parceria com a ultramaratonista Adeluci Moraes, que já conquistou inúmeras provas na modalidade. Em 2007, por exemplo, percorreu os 246 km da Spartathlon (Grécia) e chegou em primeiro lugar.
A atleta já vem trabalhando desde o ano passado em um artigo sobre o assunto, que será publicado através da Unopar, onde ela cursa Educação Física. Agora também participa da pesquisa da UEL, onde é diariamente avaliada depois dos treinos - chega a correr 30 km por dia. ''Todos os dias respondo questionários sobre o treino, faço exames médicos e tratamento preventivo de lesões'', conta Adeluci.
Ela não sai para o treinamento sem o frequencímetro, aparelho que mede não apenas os batimentos cardíacos, mas também o intervalo entre eles. Semanalmente os dados são comparados e os treinamentos vão sendo readequados, caso seja necessário.
O doutor em fisiologia do exercício, Fábio Nakamura, é um dos responsáveis pelo estudo. Ele explica que há dois tipos de cargas de treinamento a serem monitoradas: a externa e a interna. A primeira tem a ver com a velocidade, quilometragem percorrida e os limites da atleta. ''No caso da Adeluci, nós já sabemos a quantidade que ela pode treinar sem causar 'overtraning', ou seja, o excesso de treino que pode ser prejudicial'', diz Nakamura.
Já a carga interna, segundo o pesquisador, é a mais importante para a pesquisa e diz respeito a todo o funcionamento fisiológico da atleta durante o exercício. Fatores como frequência cardíaca e quantidade de oxigênio consumido durante a atividade são avaliados, além de um item decisivo para que os músculos da esportista tenham um bom desempenho: o lactato. ''É um produto do metabolismo anaeróbio que origina o ácido láctico. Esse ácido é o que causa a fadiga muscular, por isso quanto menor o nível melhor'', explica o pesquisador.
Musculação
A musculação também faz parte da rotina de preparação de Adeluci e é outro ponto a ser monitorado. O objetivo é manter a atividade sem muito ganho de massa muscular.
O treinamento de Adeluci na academia é feito pelo personal trainner Alexandre Augusto Amaral e depois avaliado pelos pesquisadores da UEL. Amaral explica que Adeluci faz um trabalho de fortalecimento para que possa suportar melhor as ultramaratonas. ''Antes ela participava das provas sem o trabalho de musculação e terminava com muitas lesões em articulações e na parte óssea. Precisa ganhar um pouco de massa muscular para evitar essas lesões, mas o trabalho é mais de fortalecimento mesmo. Isso vai permitir que ela consiga, por exemplo, aumentar a amplitude de passadas'', explica Amaral.
Além do conhecimento e informações para incluir em seu artigo, Adeluci acredita que através da pesquisa poderá melhorar seu desempenho nas próximas provas. ''Até hoje os trabalhos que realizei para esse tipo de competição foram sem muita estrutura. Agora estou aliando a minha experiência com o conhecimento dos profissionais que participam da pesquisa'', diz a ultramaratonista.
Em janeiro de 2012, ela participa do ''Mountain Do'' no deserto do Atacama (Chile). O percurso, de 42,195 km, vai passar por uma região que tem um nome sugestivo: Vale da Morte.
Os pesquisadores da UEL pretendem acompanhar a atleta para realizar a fase mais importante da pesquisa. É lá e em outras provas que eles terão a oportunidade de testar a eficácia do treinamento e, principalmente, examinar Adeluci logo em seguida, avaliando os efeitos da ultramaratona na atleta. ''Pretendemos examinar outros atletas que estiverem participando também'', ressalta Nakamura.

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