Como é verde o gramado
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quarta-feira, 07 de junho de 2000
Paulo Briguet De Londrina 
O Corinthians sofreu na noite de terça-feira a pior derrota em sua história. E não estou dizendo isso porque sou palmeirense, não. Aliás, o fato de ser torcedor do arqui-rival me deixa tranquilo para dizer que o atual Corinthians é um time bastante superior ao atual Palmeiras. A equipe do Parque São Jorge, de qualidade técnica admirável e vigor físico esplêndido, comandada por um excelente técnico, esse intelectual do futebol chamado Oswaldo de Oliveira, tinha tudo nas mãos (e nos pés) para conquistar o título mais importante da história do clube. (A não ser para os que consideram o Mundial da Fifa, aquele incipiente torneio de verão, maior do que a Libertadores da América.)
Vou mais longe. Se fosse possível falar do assunto sem as companhias delirantes da paixão e do conflito, eu diria que a derrota do Corinthians foi pior para o futebol, pois premiou o time objetivamente inferior. Ocorre que é impossível dispensar essas más companhias, meus amigos; a paixão e o conflito são componentes essenciais do futebol. Às favas com a objetividade: viva o Palmeiras! Salve o quarteto de heróis Marcão, Alex, Euller e Júnior, cavaleiros do Apocalipse alvinegro, vingadores de uma semana de gozações! A subjetividade do Verdão foi o seu diferencial. Os palavrões do Felipão que o digam.
Sabe aquele filme que é considerado o melhor de todos os tempos, Cidadão Kane? Pois é. Perdeu o Oscar de 1941 para um filme nitidamente inferior, Como Era Verde o Meu Vale. No entanto, competição e qualidade são coisas distintas em outras artes, como o cinema. Quase ninguém lembra que Cidadão Kane, aquela beleza de filme em preto e branco, perdeu o Oscar. Quase todo mundo sabe que é o melhor filme desde que a câmera foi inventada. Na literatura, é a mesma coisa. Fernando Pessoa e Guimarães Rosa não ficam nem um pouquinho menores porque perderam concursos de poesia e contos.
No futebol é outra coisa. Competição e arte se misturam no mesmo gramado. Uma depende da outra. O melhor time do mundo Brasil em 1950, Hungria em 1954, Holanda em 1974, Brasil em 1982 estará inevitavelmente manchado de melancolia se não conseguir transformar a superioridade da arte na vitória da competição. A reputação do perdedor ilustre poderá ser imensa, porém nunca irá suplantar a glória do vencedor ilustre. No caso do bravo Corinthians de Oswaldo de Oliveira, a mancha é verde.
O Corinthians foi uma pequena Hungria, uma pequena Holanda, pequeno Brasil. Sua derrota tornou-se a pior derrota porque o rival na noite de terça era o pior rival. A única derrota comparável talvez tenha sido aquele 1 a 0 para o mesmo Palmeiras, no mesmo Morumbi, em 1974, ocasião em que o alvinegro completou 20 anos sem títulos paulistas.
Quando entrevistei Rivellino, um dos maiores ídolos da torcida corintiana, ele confessou que naquela noite, depois do jogo, saiu andando sem rumo pelas ruas de São Paulo, tentanto entender por quê. É possível que Marcelinho tenha caído em depressão semelhante, após desperdiçar aquele pênalti nas mãos do gladiador Marcos. Mas, em 1974, estava em jogo um título estadual. Agora, a dimensão foi continental.
E o Palmeiras? Sei que onze em cada dez cidadãos da pátria corintiana se tornarão argentinos desde criancinhas, torcendo loucamente para o Boca Juniors na final da Libertadores. A recíproca seria verdadeira, por mais que o Galvão Bueno sustente o contrário. Mas digo o seguinte: eliminado o Corinthians, e com um título da Libertadores na sala de troféus, o Palmeiras poderia encerrar a competição agora, sem problemas. Contra o Boca, o alviverde imponente jogará pairando a dois centímetros do gramado. Vai perder ou ganhar, e sinceramente não importa muito pois a semifinal foi muito mais importante que a final.
Eis que a verdadeira missão foi cumprida: como é verde o meu gramado.
PAULO BRIGUET é redator da Folha, obviamente palmeirense, e também escreveu uma crônica quando o Verdão foi derrotado em Tóquio.


