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Esporte

m de leitura Atualizado em 23/05/2022, 19:45

Como a renovação de Mbappé virou uma questão de Estado na França e no Qatar

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de maio de 2022

ALEX SABINO
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na festa do título espanhol do Real Madrid, um jubilante Florentino Pérez comemorava a temporada improvável. A equipe havia conquistado a liga nacional com folgada vantagem. Estava classificado também para a final da Liga dos Campeões. A 17ª vez que o time chegou ao jogo mais importante do ano.

"Quem sabe? Acho que pode acontecer", disse o dirigente com um indisfarçável sorriso, sobre a contratação de Kylian Mbappé, 23, a joia da coroa do futebol francês campeão do mundo, o nome mais valioso de um Paris Saint-Germain que também tem Neymar e Lionel Messi.

Era o segredo menos bem guardado do mercado. O contrato do atacante estava por terminar, e ele iria para Madri. Era o sonho do clube e dele que, quando garoto, tinha pôster em seu quarto um pôster de Cristiano Ronaldo com a camisa branca e o número 7 às costas.

Pérez não sabia, mas estavam em andamento negociações que fariam Mbappé renovar por três temporadas com o PSG. Conversas que envolveram tortuosas tratativas, um presidente da república, um emir árabe, uma Copa do Mundo e o maior contrato da história do futebol.

O resultado disso foi um golpe considerável na liga espanhola, acusações de desonestidade financeira, reclamações e uma nova rivalidade na Europa.

"Espero que eles [do Real Madrid] entendam que eu decidi permanecer no meu país. Quero ficar aqui. Tenho enorme respeito pelo Real e entendo que eles estão decepcionados", desculpou-se Mbappé em entrevista para anunciar sua renovação até 2025. Ele prometeu torcer pelos espanhóis neste sábado (28), no duelo contra o Liverpool pela final da Liga dos Campeões. A partida será em Paris.

O Real Madrid deveria ter percebido haver algo errado antes mesmo da festa do título nacional. Uma semana antes, Mbappé havia viajado para Doha, capital do Qatar. A explicação recebida pelos dirigentes era que se tratava apenas de um compromisso comercial. Coisa de patrocinadores.

O PSG é propriedade da Qatar Sports Investment, subsidiária da Qatar Investment Authority, o fundo soberano do país, controlado pelo emir Tamin bin Hamad bin Khalifa Al Thani. A orientação era simples: o time que pertence à sede da Copa do Mundo deste ano, uma nação empenhada em mudar sua imagem, não poderia perder um dos maiores candidatos a estrela do torneio.

Começou a operação para manter Mbappé em Paris. O presidente francês, Emmanuel Macron, também interferiu para o atacante permanecer.

"Sim, nós conversamos e ele me deu bons conselhos. Quando se é uma figura nacional, há direitos e deveres e temos de assumir tudo o que somos enquanto jogador e homem", explicou o jogador, confirmando a influência do político.

No plano de marketing apresentado, será enfatizado em campanhas do PSG que Mbappé, um garoto local, nascido no 19º "arrondisssements" de Paris (a cidade é dividida em 20 regiões administrativas) se tornou o astro do futebol nacional e jogando pelo clube da capital.

Seu salário será de cerca de 1 milhão de euros por semana (R$ 5,1 milhões pela cotação atual). São R$ 245,6 milhões por ano, o maior da história do futebol. Ele também vai ficar com porcentagem da imagem explorada pela equipe em ações comerciais.

A renovação causou um misto de decepção e revolta em Madri. A versão mais aceita pela imprensa alinhada com o Real era que o jogador e sua mãe e empresária, Fayza Lamari, já haviam empenhado as palavras de que o astro atuaria na Espanha na próxima temporada.

Fayza nega que isso tenha acontecido e foi ao Twitter contestar jornalistas que afirmaram o contrário.

Foi um golpe também para quem comanda o futebol espanhol. Desde que Cristiano Ronaldo trocou o Real pela Juventus (2018) e Messi deixou o Barcelona para defender o PSG (2021), LaLiga, o campeonato do país, ficou sem um astro global. A esperança era que este seria Mbappé.

Nas últimas três temporadas, a distância entre a arrecadação dos clubes da Premier League (Inglês) e de LaLiga, os dois torneios nacionais europeus mais rentáveis, têm aumentado. Na 2019-2020, interrompida por alguns meses pela pandemia da Covid-19, os 20 times ingleses da elite tiveram uma receita somada de US$ 5,4 bilhões (R$ 25,9 bilhões na cotação atual) contra US$ 3,3 bilhões dos espanhóis (R$ 15,8 bilhões).

Nesta temporada, encerrada neste mês, a estimativa é que a Premier League chegou a US$ 6,4 bilhões (R$ 30,7 bilhões). A Espanha está em US$ 3,6 bilhões (R$ 17,3 bilhões).

Javier Tebas, presidente de LaLiga, chamou a renovação de Mbappé um "insulto" ao futebol. Também disse que o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaifi é tão "perigoso quanto a Superliga".

"LaLiga quer deixar claro que este tipo de acordo ataca a estabilidade econômica do futebol europeu, colocando em risco centenas de milhares de empregos e a integridade do esporte, não apenas nas competições europeias, mas nas ligas domésticas", diz texto de comunicado divulgado pela entidade que prometeu apresentar reclamação à Uefa.

A queixa é que dentro da regra do "fair play financeiro", de que os clubes não podem gastar mais do que arrecadam, o PSG jamais teria recursos para renovar o contrato de Mbappé. A equipe divulgou perdas de 220 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão pela cotação atual) em 2021 e acumula prejuízos de 700 milhões de euros (R$ 3,6 bilhões) nas temporadas anteriores.

O PSG sabe como driblar este tipo de problema. Para ter Mbappé em 2017, no mesmo ano em que pagou 222 milhões de euros (R$ 1,13 bilhão pelo dinheiro atual), para contratar Neymar do Barcelona, fez um acordo com o Monaco. Recebeu o atacante por empréstimo e se comprometeu a, na temporada seguinte, pagar 180 milhões de euros (R$ 922 milhões) para tê-lo em definitivo.

A queixa aberta de Tebas e velada de outros dirigentes da Europa é que o PSG se apoia em contratos de patrocínio questionáveis, em que a fonte de dinheiro é, no final de tudo, o mesmo governo do Qatar que é dono do clube. É acusação também feita ao Manchester City, pertencente à família real dos Emirados Árabes Unidos.

O pano de fundo é a acusação de "sportswashing", estados autocratas com escasso respeito à democracia e aos direitos humanos que usam investimentos em times de futebol como estratégia de geopolítica. O último exemplo foi o Newcastle, da Inglaterra, comprado por empresa ligada à família real da Arábia Saudita.

"Acho que é uma boa coisa que a Ligue 1 [Campeonato Francês] esteja melhor que LaLiga, que não é a mesma de três ou quatro anos atrás. Nós temos o melhor jogador do mundo e isso é tudo o que interessa para nós", comemorou Al-Khelaifi.

É mais uma vitória dele sobre Pérez. A influência do PSG e de seu presidente foram fundamentais para enterrar (pelo menos por enquanto) a Superliga —competição elaborada por 12 dos mais ricos e poderosos clubes do futebol na Europa, projeto que tinha o Real Madrid como um dos maiores entusiastas.

A agremiação espanhola entrou na Justiça para manter o plano vivo. A consequência disso foi o crescimento da influência de Al-Khelaifi na Uefa e na associação de clubes do continente.

Foi também uma enorme aposta financeira que deu certo. Na temporada passada, o Real Madrid ofereceu 160 milhões de euros por Mbappé (R$ 819,6 milhões hoje), que tinha apenas mais um ano de contrato. O PSG disse não mesmo com os rumores de que o atacante já procurava casa na capital espanhola. Argumentou que ainda devia 36 milhões de euros (R$ 184,4 milhões) ao Monaco pela compra do craque.

A aposta era que conseguiria, no final, convencê-lo a ficar. Teve sucesso graças à ajuda de presidente, emir, plano de marketing, promessa de que no futuro ele pode realizar o sonho de ir ao Real Madrid e dinheiro. Muito dinheiro.