O ano é 1962 e o Esporte Clube Comercial, de Cornélio Procópio, está a um jogo da sua maior glória já alcançada. A partida é contra o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa. O árbitro apita o fim da decisão, 2 a 1 para o time de Cornélio: Comercial é campeão paranaense de 1961.
O Leão do Norte conquistava ali seu único título estadual e o mais importante de todos. Fundado por um grupo de empresários e fazendeiros em 25 de março de 1943, o Comercial sempre passou por dificuldades. Nunca foi um clube rico. O dinheiro era pouco para um time de futebol, mas mesmo assim não influenciava no rendimento da equipe.
A penúria começava pelo elenco: o time campeão de 1961 contava apenas com 15 jogadores. As viagens eram feitas de jardineira (ônibus com bancos paralelos), onde os atletas também dormiam. Além disso, não tinham alimentação, conforme contam os radialistas Waurídes Brevilheri, proprietário da Rádio Cornélio Procópio AM, e Jayme Camacho, que acompanhavam os jogos do time na época. ''O Comercial vivia da boa vontade das pessoas'', garantem.
Dificuldades financeiras à parte, o Leão do Norte era um time muito díficil de ser batido em seus tempos áureos, entre o fim da década de 50 e o começo dos anos 60. Em 58, o Comercial começou a mostrar que iria dar trabalho aos clubes mais tradicionais e foi campeão invicto do Norte Paranaense.
Já em 1962 veio a consagração e o maior orgulho da torcida: o título estadual. O torneio era dividido em três regiões Sul, Norte e Norte Velho e os campeões de cada uma faziam o triangular final para ver quem era o melhor time do Estado.
Comercial (Norte), Esportiva, de Jacarezinho (Norte Velho) e Operário (Sul) eram os finalistas. Os jogos decisivos foram realizados somente em 1962, porque o time de Ponta Grossa travou uma disputa judiciária com o Coritiba. Alegando que o clube da capital teria utilizado um jogador irregular, o Operário conseguiu disputar as finais.
Na metade de 1962 começaram os jogos decisivos. A equipe de Cornélio perdeu uma partida para o Operário por 3 a 0, em Ponta Grossa, e venceu a Esportiva duas vezes. Com esses resultados, a decisão ficou para o último jogo do triangular, em Cornélio Procópio, entre o time da casa e o Operário, que tinha a vantagem do empate. O Leão venceu por 2 a 1 e garantiu o título.
O elenco, apesar de reduzido, era muito bom e contava com jogadores experientes, como o centroavante Garoto, vindo do São Paulo, e o paraguiao Villanueva. Não tinha destaques individuais. O time era bem equilibrado e o conjunto é que fazia a diferença. ''Além disso éramos unidos e alegres. Brincávamos muito um com o outro. Tinha muito trote entre a gente. Essas brincadeiras refletiam em campo e jogávamos descontraídos'', conta o centroavante Miguelão.
Os ex-jogadores lembram com saudades daquela época. O então capitão do time, o lateral-direito Dirceu Funari, esteve nas duas conquistas. ''Era difícil ganhar da gente'', lembra Funari, orgulhoso do bom nível do time. Ele foi o autor de um dos gols da decisão contra o Operário, de pênalti.
Miguelão também participou dos dois triunfos. Goleador, era muito bom cabeceador e um dos matadores do time, mas não pôde jogar a final de 61. ''Operei o joelho e fiquei de fora. Foi uma decepção, eu estava num bom momento da carreira'', recorda.
Por ser o campeão estadual, o Comercial representou o Paraná na Taça Brasil de 1962, enfrentando o Metropol, de Criciúma. O primeiro jogo foi em Cornélio e terminou empatado em 1 a 1. No segundo jogo, a equipe de Santa Catarina venceu por 1 a 0 em casa e se classificou para a fase seguinte, enfrentando o Santos de Pelé e Coutinho.
Depois desse período glorioso, o Comercial começou desmanchar o time. Jogadores foram negociados, a força foi acabando, até que em 69 veio a consumação da decadência, encerrando suas atividades. O estádio onde o clube sagrou-se campeão foi vendido e hoje dá lugar a imóveis comerciais. Com o dinheiro, uma área de 59 mil metros quadrados foi comprada para a construção de um novo estádio com centro de treinamento, que não chegou a ser concluído.
Por causa de dívidas com a prefeitura, o local foi entregue à administração municipal em 1976, com a condição de que fosse construído um centro poliesportivo. Isso não aconteceu e o terreno foi repassado ao Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), onde hoje está instalada a escola.
Antes disso, em 70, foi inaugurado o Estádio Ubirajara Medeiros, com capacidade para 5,5 mil torcedores. Hoje é o único estádio da cidade.

mockup