Com o sentimento de dever cumprido
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de dezembro de 2008
Julio Cesar Lima<br>Equipe da Folha 
Depois de 18 anos sob o comando de Vicélia Ângela Florenzano, a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) terá, a partir do ano que vem, um novo presidente. O nome sairá de uma eleição que será realizada hoje, em Curitiba. A disputa acontece entre Marco Antonio Martins, presidente da Federação Brasiliense de Ginástica, e Maria Luciene Cacho Resende, atual vice-presidente da CBG. O eleito será escolhido pelos votos dos presidentes das 18 federações que compõem a entidade.
O vencedor fica no cargo até o fim de 2012, ano dos Jogos Olímpicos de Londres. E terá pela frente o desafio de manter a popularidade e os bons resultados alcançados pelo esporte no Brasil ao logo da administração de Vicélia. Em 1991, quando assumiu a CBG, a atual presidente conviveu com problemas financeiros e uma falta de estrutura que comprometiam a formação e o desempenho de atletas. Mas conseguiu reorganizar a entidade, buscar patrocínios fortes e levar a seleção brasileira de ginástica artística a conquistas internacionais, com títulos individuais na Copa do Mundo e a classificação de atletas e equipes para finais olímpicas.
Em entrevista concedida por e-mail à FOLHA, Vicélia faz um balanço de seus cinco mandatos consecutivos à frente da CBG, conta os planos para o futuro e comenta assuntos polêmicos, como as denúncias feitas por ginastas da seleção brasileira, após a Olimpíada de Pequim, de que seriam mal tratadas por treinadores. Confira os principais trechos:
Folha - Quais os pontos positivos de sua gestão à frente da CBG?
Vicélia - Considero que a cada mandato a realidade se modificou e com isso ampliaram-se minhas pretensões. Fato é que muitas tarefas foram realizadas, das mais simples às mais complexas. Tivemos em diversas áreas melhoria, seja na quantidade, seja na qualidade. Alguns exemplos: aumento significativo de praticantes nas sete modalidades que administramos na CBG; aprimoramento na organização dos eventos nacionais, proporcionando aos nossos ginastas, técnicos, árbitros condições semelhantes a eventos internacionais; realização de eventos internacionais importantes, destacados por autoridades, com elogios pela qualidade na organização; resultados inquestionáveis que levaram o nosso País a se destacar e merecer respeito dos países que dominam a ginástica por dezenas de anos - o Brasil está no topo do mundo; ter implantado Centros de Excelência de Ginástica - temos hoje quatorze Estados envolvidos com dezoito Centro de Excelência Caixa-Jovem Promessa de Ginástica e está projetada para o ano que vem mais dezesseis Centros oportunizando o acesso a ginástica a 5100 crianças. Isto verdadeiramente é bárbaro. Assim, olhando para a ginástica do Brasil, encontramos feitos importantes para avaliar que deixaremos um saldo positivo. Todavia, tenho consciência que o crescimento que tanto nos orgulha também traz mais e mais exigências, de tal sorte que jamais será o suficiente e que novos desafios terão que ser vencidos.
Houve algum projeto ou alguma coisa em andamento que não saiu como o esperado? Houve algum tipo de frustração nesse período?
Sim, passei por situações difíceis. Vou citar alguns exemplos que interferiram diretamente na realização do esperado, na frustração, chegando ao constrangimento. Não ter nenhuma estrutura para o funcionamento de uma secretaria. Não ter aparelhos para realizar o evento solicitado para o Brasil pela diretoria anterior. Não ter recursos para pagar passagens, hospedagem, alimentação, uniformes, ficando assim a seleção brasileira à mercê das condições dos pais ou de seus clubes. Pedir para um árbitro pagar suas despesas ou levar o Brasil a um evento internacional sem árbitro. Suspender um evento internacional no meio da competição, pois a direção do ginásio concedeu o espaço para duas atividades ao mesmo tempo. Receber, vinte dias antes da Competição Pan-americana, um fax do Governador de Estado, cancelando o compromisso de repassar recursos para o evento. Projetos não aprovados por não ter condições de cumprir com a contra partida. Ser literalmente despejada do imóvel por não ter condições de manter o pagamento do aluguel. Na verdade, foram muitas situações caóticas, mas também é verdade que todas foram superadas, mesmo que não de forma ideal. Por isso tenho tanto orgulho das conquistas, tenho gratidão a tantas pessoas que me ajudaram. Tenho a grande satisfação de entregar uma confederação gigante, forte, sem nenhuma dívida e com um fundo de reserva que garantirá à nova diretoria trabalhar, sem precisar passar por situações semelhantes das que eu vivi.
As recentes discussões de Jade Barbosa, Daiane dos Santos e Lais Souza, que foram a público reclamar da CBG, não afetaram a imagem da entidade?
Seria necessário você citar as reclamações. Sua pergunta é genérica e desta forma não sou capaz de avaliar se afetam a imagem da entidade. Todavia, gostaria de apresentar algumas questões, levando-se em consideração que tivemos a Seleção Olímpica Permanente concentrada em Curitiba durante oito anos. Você acredita que um atleta, convivendo em média sete horas por dia dentro de um ginásio, repetindo dezenas de vezes exercícios, permaneceria um longo tempo se o ambiente fosse hostil? Você acha possível um atleta permanecer treinando se não houvesse estrutura pelo menos igual ao seu clube? O atleta permaneceria se voltar ao seu clube sempre foi uma opção exclusiva dele? Acredita verdadeiramente que um atleta permaneceria se os benefícios não fossem significativos, seja no ganho dos aspectos técnicos, seja na estrutura que disponibilizamos, como ginásio, técnicos, médicos, fisioterapeuta, massagista, escola e faculdade, moradia adequada e a ajuda de custo? Argumentei estes aspectos pois, em meu conceito, reclamações e opiniões são diferentes. Portanto, precisaria identificar o seu ponto de vista sobre reclamação.
Você continuará a atuar em algum órgão ou por conta própria em alguma atividade relacionada à ginástica?
Sim, vou continuar na ginástica. Julgo ter condição de continuar colaborando e penso que serei uma pessoa infeliz se me afastar neste momento de forma definitiva. Tenho uma longa vida dedicada à ginástica, trinta e oito anos. Acredito que ainda estou em condições para desenvolver e colaborar com a ginástica e agora de forma pontual para o nosso Estado. Atualmente tenho projetos que podem ser desenvolvidos na Federação Paranaense de Ginástica, junto a escolas ou, se for o caso, particularmente.
Na sua opinião, o projeto de formação de novos ginastas está no caminho certo?
Sim, estou segura. Devemos lembrar que é um projeto de longo prazo. Portanto, é necessário avaliar constantemente para que seja adequado à realidade que irá se estabelecer em cada Estado. Precisamos ter a consciência que é um projeto, onde veremos os frutos se multiplicarem somente em dois anos. Precisará ter cada vez mais investimento para atender o desenvolvimento que naturalmente acontecerá, seja no número de praticantes, seja na estrutura do avanço técnico, seja para assegurar que o ginasta possa de fato seguir sua carreira. Sou muito grata à Caixa Econômica Federal, que decidiu investir em longo prazo. Acredito na seriedade deste banco, como acredito que outros parceiros se integrarão ao projeto. Desejo ver se tornar realidade a Escola Brasileira de Ginástica.
Você apóia o projeto de lei em discussão no Senado que limita o número de eleições de uma pessoa para a mesma entidade?
Lamento, mas não conheço o projeto. Participei casualmente de uma conversa e soube que a discussão teria se encerrado, pois as confederações e federações são consideradas entidades privadas. De fato não conheço o projeto de lei, portanto não sei dizer se esta afirmação é pertinente. Todavia, permita-me dar minha opinião a este respeito. Nunca entendi de verdade esta discussão. Assim, reapresento as perguntas que já fiz a muitas pessoas. Será que um dirigente é diferente de um empresário, de um político? Quanto tempo é necessário para se administrar o esporte com conhecimento nacional e internacional? Dirigir o esporte é uma tarefa fácil, difícil? Quanto tempo de seu dia um dirigente precisa dedicar a uma confederação ou a uma federação? A que custo um dirigente compatibiliza sua vida pessoal e profissional com a direção de uma entidade? Porque um dirigente não pode ser um profissional, a exemplo de um executivo de uma empresa? Quantas pessoas se motivam para atuarem como dirigente? Limitar o tempo e as vezes que poderá ser eleito seria de fato a maneira mais eficaz para promover o desenvolvimento do esporte? Baseado em que avaliação se define ou se conceitua o trabalho de um dirigente? Gostaria que você não me entendesse mal, eu não sou absolutamente contra a cobrança de resultados, no mais amplo sentido. Não sou contra a renovação das idéias e de pessoas. Eu simplesmente não entendo porque se discutir tempo de um dirigente. Eu não acredito de forma alguma que esta discussão seja a solução para melhorar, suprir tantas outras necessidades do esporte. Quem sabe um dia. Hoje eu não encontro justificativa.


