Com o coração em dia
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de junho de 2006
Jaime Kaster<br> Reportagem Local 
Com o futebol burocrático e lento que a seleção brasileira vem jogando, o sofrimento daqueles que já padecem de algum mal se torna maior ainda. Ontem, a reportagem da Folha foi acompanhar o jogo Brasil x Austrália em dois hospitais de Londrina para conferir como é o sentimento dos que estão se recuperando de algum problema de saúde e se colocam em frente a uma tevê em jogo de Copa.
Na enfermaria do SUS na Santa Casa, um quarto chamava a atenção devido a um cartaz colado na porta, anunciando ali o Clube dos Infartados. Mais abaixo, a mensagem de que haveria um sorteio entre os acamados e que os prêmios seriam uma churrasqueira, um barril de chope e uma festa com um grupo de pagode só feminino frisaram.
Como a gente não pode fazer nenhuma dessas coisas, precisa brincar com a situação. Pelo menos ficamos imaginando o que gostaríamos de ter numa hora dessas, comentou o agricultor e marceneiro José Hilário Romero, 51 anos, de Cornélio Procópio.
Ele sofreu um infarto na terça-feira, antes do jogo contra a Croácia, e foi trazido às pressas para Londrina, onde passou por angioplastia. Estava internado ao lado de outras duas pessoas que também passaram pela mesma situação: José Lúcio Ferreira, 52, de Jataizinho, que teve seu terceiro ataque cardíaco, e Benedito Cardoso de Jesus, 73, de Londrina.
O fato de ficarem os três internados no mesmo quarto da enfermaria foi pura coincidência. Por isso resolvemos fazer a brincadeira, que aqui é o nosso clube, divertiu-se Romero. Como não podem fazer nada enquanto não vier o restabelecimento, uma tevê ligada era ao menos um alento. Ela nem é nossa. É de um cara operado que saiu na quinta-feira e não deixamos ele levar embora. Pelo menos enquanto ainda tiver jogo do Brasil, frisou o marceneiro.
Enquanto o narrador anunciava o início do segundo tempo, Romero, já irritado com o time na primeira etapa, foi enfático: Vai Brasil, vamos fazer logo esse gol e ganhar essa coisa, senão eu vou ser obrigado a quebrar essa televisão.
Ferreira, que é mecânico, também não gostou de ver a seleção no primeiro tempo. Tô vendo que vou sofrer muito nessa Copa. Os caras não estão jogando nada e parece que não têm nada dentro da cueca. Desse jeito isso aí vai terminar 0 a 0, criticou.
Alguns minutos depois, Ferreira assistiu ao gol de Adriano, abrindo o placar. Olha só, acabei queimando a língua. Foi só eu falar que o cara resolveu botar a bola pra dentro, comentou. Na comemoração do gol, festa geral na enfermaria, com doentes, familiares e enfermeiros gritando Brasil!, Brasil!... Logo veio o alerta bem-humorado de um deles para o pessoal do corredor: Calma, gente, não vai ninguém morrer aí por causa dessa seleção.
O aposentado Benedito de Jesus brincou com a enfermeira que depois de assistir a uma apresentação dessas do Brasil (enquanto ainda estava 1 a 0) ninguém mais precisa fazer eletro (cardiograma), porque já sabe que o coração agüenta. Ele disse que guarda saudade da seleção de 1958, campeã na Suécia. Foi a melhor que eu já vi jogar. Era um futebol solto, o Pelé estava começando. O time fazia muitos gols e dava espetáculo, lembra. Para ele, essa seleção de Parreira tem a obrigação de no mínimo chegar à final.
Irmã Lorena Jenal, a reponsável pela enfermagem, frisou que não deixou ninguém sem assistir à partida. Tiramos seis tevês do auditório e distribuímos pelos corredores. Aqui só ficou sem ver o jogo aquele que não quis.


