São Paulo - A técnica Laís Elena Aranha é um fenômeno por muitos motivos. Primeiro por ser uma das raras mulheres no comando de equipes profissionais de esportes olímpicos, no caso o basquete. Segundo por sua longevidade em um mesmo clube: neste ano completa nada menos do que 47 anos dedicados ao Santo André como atleta, técnica das categorias de base e treinadora do time feminino profissional. Ela é uma versão abrasileirada de Alex Ferguson, o lendário técnico de futebol do Manchester United, ativo no cargo desde 1986.
Mas a história tem data marcada para mudar. Laís anunciou que 2012 será seu último ano como treinadora. Vai passar a prancheta para sua assistente, Arilza Coraça, e se dedicar à carreira de dirigente. Há 15 dias, a treinadora levou o Santo André ao título da Liga de Basquete Feminino (LBF).
Agência Estado - Você é um fenômeno raro no esporte por defender por muitos anos um mesmo clube. Quanto tempo faz que você está no Santo André?
Laís Elena - Comecei jogando basquete pela Pirelli, em 1964, e fiquei no time até encerrar a carreira, em 1978. Depois fui técnica da equipe de base por oito anos até que fui promovida para o time principal, onde estou até hoje. O time teve vários nomes e patrocinadores, Pirelli, Lacta, Polti-Vaporetto, Arcor, todos sob meu comando.
AE - O que você acha que te levou a essa longevidade?
Laís - Acredito que durante o percurso, independentemente da pessoa no comando, sempre passei credibilidade, confiança. Sempre tratei todos com profissionalismo e também com amor. Acho que se você coloca amor nas coisas, tudo dá certo. Outra coisa que conta é que nunca perco a motivação. Sou resistente, ativa, ansiosa. Quer me ver irritada? Me deixe meio período em casa.
AE - Acredito que na sua trajetória tenha alguns momentos marcantes, atletas que revelou...
Laís - Tenho sim. A Leila, por exemplo, que foi um dos destaques do Mundial da Austrália. Ela chegou aqui pedindo ajuda pois estava sem clube, sem dinheiro e com uma contusão no joelho. A gente conseguiu recuperá-la e ela ainda jogou três anos na Europa. Também teve a Kelly, que chegou aqui com 110 quilos, o joelho operado e com dificuldades financeiras. Conseguimos que ela recebesse ajuda da Confederação e em quatro meses a colocamos em condições de disputar o Mundial. Como agradecimento, ela jogou o primeiro turno do Estadual de graça. Doze meninas reveladas em nossas categorias de base foram estudar nos Estados Unidos. O que a gente faz é também um trabalho social.
AE - Como você se define como técnica?
Laís - As atletas dizem que sou mãezona. Mas não passo a mão na cabeça. Sou daquelas que dá carinho, apoio, mas cobra.
AE - E como você lida com a indisciplina?
Laís - Nunca tive problemas. Quando a atleta chega aqui explico como tudo funciona e pergunto se a pessoa está disposta. Aliás, nunca nenhuma atleta minha deixou o time.
AE - Nenhuma?
Laís - Não. A atleta é sempre dispensada. Nunca ninguém quis sair. É um conforto.
AE - E o que você planeja para o futuro?
Laís - Vou trabalhar mais um ano como técnica aqui no Santo André. Depois quero ser dirigente. Acho que chegou a hora da Arilza, que considero uma assistente de luxo, assumir. Ela está pronta. Tem ética, responsabilidade, caráter.
AE - Não tem planos de seleção? Aliás, o que você acha da presença de um técnico estrangeiro no comando da equipe nacional?
Laís - Vou continuar servindo ao basquete nos bastidores. Sobre técnico estrangeiro não sou contra, mas desde que não tenhamos alguém melhor por aqui. No caso do (Carlos) Colinas (espanhol, técnico da seleção no Mundial, que ficou em 9.º lugar), me desculpe a franqueza, mas o pior técnico no Brasil é melhor do que ele. Nunca vi uma participação técnica e tática tão ruim quanto a que o Brasil mostrou no Mundial.

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