Autor do clássico livro "Invertendo a Pirâmide", sobre táticas de futebol, o jornalista inglês Jonathan Wilson chegou apreensivo ao estádio Monumental, ontem. "O que está acontecendo com o Brasil?" Surpreendeu-se ao ouvir a informação de que a seleção de ontem tinha só um jogador igual ao 7 a 1, onze meses atrás.
"Só um?" perguntou. "Sim, Fernandinho!", antecipou-se Tim Vickery, também jornalista e inglês, bem ao meu lado.
Até Wilson concorda que montar um time por ano mata a chance de haver jogo coletivo.
O mundo ainda se surpreende com a dificuldade da seleção. Nesse aspecto, não mudou a percepção dos adversários sobre o Brasil. Os estrangeiros sempre entram no estádio esperando ver bom futebol. Os brasileiros também.
Talvez isso explique por que no meio do primeiro tempo, quando a seleção já vencia por 1 a 0 e trocava passes sem se aproximar da finalização, um repórter de rádio disparou em voz alta, para toda a tribuna de imprensa escutar: "O Brasil é só toquinho, toquinho, toquinho..."
Enquanto a confiança não chega, o time não existe e é melhor administrar o resultado do que correr o risco do vexame. O jogo sem sal de ontem registrou a melhor apresentação coletiva da seleção no torneio. A falta de brilho não destoou da primeira fase da Copa América. Até a Argentina de Messi foi preguiçosa contra a Jamaica.
O Chile foi o melhor time da primeira fase. Aránguiz, Alexis Sánchez e Valdivia foram brilhantes contra a Bolívia. "É preciso comparar os adversários", disse Geraldo Martino, técnico da Argentina. Sim, mas Sampaoli parece conseguir livrar sua equipe da pressão de ser a dona da casa.
O Brasil ainda não se livrou do peso dos 7 a 1 e cada derrota vai trazer de volta a ideia de que não há mais chance de vencer no atual estágio da seleção. Na Copa América, há mais chance de perder do que de ganhar, mas houve outros momentos em que essa percepção era igual.
Robinho retribuiu a confiança de Dunga e deixou claro que é a escolha certa para entrar na equipe no lugar de Neymar.
Só por curiosidade. Robinho entrou com a camisa 20 no terceiro jogo de um torneio organizado pelo Chile e com risco de eliminação. Como Amarildo, camisa 20 na Copa de 62, titular pela primeira vez no terceiro jogo, quando a Espanha esboçou eliminar o Brasil.
Robinho não é a escolha certa por causa da coincidência, mas porque ensina o atalho. Não é mais o menino das pedaladas. É o homem dos passes curtos. Com ele, o time movimentou-se mais, abriu mais espaços e marcou mais a saída de bola.
Ainda é pouco e o fim do jogo foi lastimável. Houve mais conjunto, mas não encantou os jornalistas ingleses nem os torcedores brasileiros. Por enquanto, evitou o vexame.

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