Rio - Os clubes brasileiros perdem milhões todos os anos ao negligenciarem negócios que envolvem direitos intangíveis, como o licenciamento de suas marcas e a produção de conteúdo inspirado em sua imagem ou na de seus craques. A avaliação é de especialistas que se reuniram ontem no Rio para debater oportunidades para lucrar com intangíveis no esporte.
''O Brasil ainda está engatinhando na comparação com clubes europeus, por exemplo'', diz Pedro Trengrouse, coordenador de pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Advogado com especialização da Fifa, ele diz que um levantamento da instituição apontou um potencial de crescimento superior a 3.000% no Brasil para negócios dos times envolvendo marketing e licenciamentos.
Um termômetro disso é a comparação entre os cerca de R$ 297 milhões arrecadados pelo Real Madrid na última temporada e a receita de R$ 59 milhões do Corinthians em 2010. Para Trengrouse, os times brasileiros aprenderam a explorar bem a publicidade, como a venda de espaço nas camisas que triplicaram suas receitas na última década, mas ainda tiram pouco de suas próprias marcas.
''Os clubes precisam aproveitar oportunidades, como as novas mídias, para investir no relacionamento com seu torcedor numa estratégia articulada. O nível de excelência que a Copa e a Olimpíada trarão na área de marketing serão catalisadores de uma melhor exploração das marcas dos clubes. A palavra-chave será inovação. Os clubes vão aprender com esses eventos'', prevê Trengrouse.
O advogado Bruno Holfinger, sócio do escritório Dannemann Siemsen, cita o descontrole na reprodução dos escudos dos times como exemplo de potencial desperdiçado. ''O escudo é a marca do time, a maior riqueza que ele tem. O Boca Juniors, da Argentina, vende de bola a calcinha com escudo no mundo inteiro'', aponta o advogado.
Por outro lado, Holfinger aponta um amadurecimento dessas oportunidades nos clubes, que usam a publicidade para sustentar grandes contratações como a de Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo e ampliam ainda mais o potencial do marketing no futebol, elevando seus ganhos indiretos. ''Antes, os times compravam jogador para fazer gol e ganhar jogo, hoje é para ganhar dinheiro'', afirma.
Ele cita como exemplo o impacto que a chegada de um jogador como Ronaldo ao Corinthians provocou na venda de camisas oficiais do clube. No entanto, a marca do time é pouco explorada em outros produtos, que incluem até mesmo outros bens imateriais, como o conteúdo para videogames e publicações.
Para Holfinger, a onda de jogadores repatriados pelo futebol brasileiro está ligada à profissionalização do marketing esportivo no Brasil, que viabiliza os salários milionários com a participação de investidores que adquirem fatias dos direitos econômicos sobre os jogadores. Ao mesmo tempo, observa ele, isso aumenta ainda mais o potencial do futebol como negócio.
''Os craques voltam porque sabem que há um mercado potencial no Brasil, para onde a Copa está voltando todos os olhos do mundo. Descobriram que, em vez de ser mais um na Europa, podem ser estrelas de novo aqui, com grandes patrocínios e sem perder visibilidade mundial'', observa o advogado.
Os jogadores parecem mais atentos às oportunidades do que os clubes. Ronaldo, por exemplo, atua também fora dos gramados como garoto-propaganda, passando de medicamento a banco - tem patrocínio até para o seu perfil no Twitter, bancado pela Claro. Enquanto isso, a Seara baseou toda sua estratégia de mídia ao futebol patrocinando a seleção brasileira e o Santos, mas também remunera Neymar.
''O jogador ganha até mesmo se não jogar. Para o clube e os investidores, é preciso que o atleta tenha resultados em campo e não se envolva em escândalos, como no caso de Bruno, ex-goleiro do Flamengo'', explica Holfinger.

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