Em depoimento ao auditor processante do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) do Paraná, José Carlos Faret, e ao representante da Procuradoria, Carlos Augusto Marinoni, ontem à tarde, o jogador do Atlético Paranaense Cleonício dos Santos Silva revelou que foi o empresário Carlos Alberto Santana, o ‘Bebeto’, quem o orientou a utilizar a documentação de Renato Albuquerque de Lima.
Em meados do mês de junho do ano passado, quando Bebeto era técnico da equipe júnior do Foz do Iguaçu, Cleonício teria sido indicado por Sandro M. da Silva, um amigo carioca que atuava no Foz. De acordo com Cleonício, Bebeto viajou ao Rio de Janeiro para observar seu futebol numa ‘‘pelada’’. Convidado pelo técnico-empresário para integrar os juniores do Foz do Iguaçu, Cleonício (nascido em 19 de abril de 1976) informou que sua idade não permitiria, pois já havia completado 21 anos.
Bebeto teria sugerido então que se fizesse um ‘‘gato’’ (na gíria do futebol, jogador que adultera documentos para atuar nas categorias menores) de idade. Cleonício disse que não poderia fazê-lo, já tendo sido registrado pelo Campo Grande Atlético Clube.
Nesse momento, Bebeto teria orientado que se utilizasse a documentação de outra pessoa, como foi feito. Diante da dificuldade financeira de sua família e da saúde debilitada de seus pais, Cleonício viu a oportunidade no futebol, já que não tinha intenção de prejudicar ninguém.
Não estando à vontade com a situação e sabendo que não poderia persistir no erro, correndo o risco de perder o emprego, Cleonício passou a ser chantageado por telefonemas anônimos. Foi quando resolveu procurar a diretoria do Atlético, após o encerramento do Campeonato Paranaense, para revelar o caso. Ao mesmo tempo em que a diretoria do Coritiba já alertava quanto à verdadeira identidade do jogador Renato (nascido em 30 de outubro de 1979). Bebeto também teria providenciado uma procuração, assinada por Milton Albuquerque de Lima, pai de Renato, o autorizando a cuidar dos interesses do jogador.
O auditor José Carlos Faret, auditor processante do inquérito, determinou a convocação de Carlos Alberto Santana para prestar depoimento na próxima sexta-feira, às 14 horas. Como não está mais vinculado ao Foz do Iguaçu, Bebeto tem o direito de não acatar a solicitação do TJD. Depois de redigir o relatório final, o inquérito será enviado à Procuradoria, que terá um prazo de dois dias para oferecer denúncia ou requerer o arquivamento do processo.
O Código Brasileiro Disciplinador de Futebol (CBDF) prevê suspensão de 180 a 360 dias para os casos de falsidade ideológica. Na Justiça Comum, o crime está sujeito a pena de reclusão (2 a 6 anos) e multa. A autodenúncia de Cleonício, em carta enviada ao presidente da Federação Paranaense de Futebol, Onaireves Rolim de Moura, no dia 25 de junho, pode reduzir a pena ou até absolvê-lo.

mockup