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m de leitura Atualizado em 16/07/2022, 23:10

Cláudio saiu de Santos, dia após dia, para ser Corinthians

PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de julho de 2022

MARCOS GUEDES
AUTOR autor do artigo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Corinthians chegou ao duelo da noite de sábado (16), contra o Ceará, sem que nenhum de seus jogadores tivesse feito gol nas seis partidas anteriores. Neste domingo, comemora o centenário de um homem que colocou 305 bolas na rede vestindo sua camisa.

Cláudio Christóvam de Pinho nasceu em 17 de julho de 1922, em Santos. De lá nunca saiu. Exceto todo dia, ou quase isso, entre 1945 e 1957, período em que se tornou ídolo de um alvinegro não praiano e seu maior artilheiro.

Ninguém fez tantos gols pelo Corinthians quanto Cláudio, um dos únicos dez jogadores até hoje homenageados em forma de busto no Parque São Jorge. Mas resumir a números a trajetória daquele que ficou conhecido como Gerente é ignorar a essência do clube preto e branco, mais amor (e dor) do que glória --embora tenha havido muita glória no tempo do Gerente.

"Sou corinthiano por causa do Corinthians e por causa dos corinthianos", explicou, em depoimento ao livro "Coração Corinthiano" (1992), do corinthiano Lourenço Diaféria.

O santista fora torcedor do Santos, time no qual iniciou a carreira. Antes da chegada ao Corinthians, marcou o primeiro gol do Palmeiras com esse nome, em 1942. No fim de sua trajetória de chuteiras, ainda defendeu o São Paulo. Mas um jogo de 1955, um empate por 5 a 5 com o Vasco, que vencia por 4 a 1 e depois por 5 a 2, ajuda a explicar por que Cláudio era mesmo Corinthians.

"Olhei lá para cima, as bandeiras, a face da torcida. Parece um rosto só. Um único nariz, dois olhos luminosos, uma única pele, uma única boca gritando 'Corinthians!'. A torcida é uma coisa só. Fala com um, anima o outro, berra com aquele, e a torcida esperando o milagre", descreveu, segundo Diaféria. "Não comecei corinthiano. Eu fui corinthiano depois. E nunca mais deixei de ser."

O Santos ficou para trás, mas não sua Santos. Abandonar a cidade jamais pareceu uma alternativa viável. Por isso, quando o Corinthians o contratou, em 1945, decidiu permanecer em casa. Mesmo depois de bem ambientado na zona leste paulistana, persistiu na migração pendular, ainda tão comum a muitos daqueles que trabalham na capital paulista.

"Eu já estava casado com a Norma. Morava na casa dos meus sogros. Levantava cedo. Às 5h20, pegava o bonde que vinha da Ponta da Praia e tinha o ponto final na praça Mauá. Descia, andava um pouco, na rua do Comércio tomava o ônibus para São Paulo. A viagem levava duas horas. Quando chovia, era lama, vinha pela estrada velha de Santos", recordou.

O trajeto se tornou menos solitário, ainda em 1945, quando chegou ao Corinthians outro ídolo histórico nascido no litoral, Baltazar. "Descíamos do ônibus de Santos no Parque Dom Pedro, onde pegávamos uma lotação até a rua São Jorge, esquina com a avenida Celso Garcia. A pé, fazíamos o trecho da até o rio Tietê."

A parceria funcionou.

O ponta-direita Cláudio fez do centroavante Baltazar o Cabecinha de Ouro. Os cruzamentos eram precisos; as finalizações pelo alto, idem. "O Baltazar foi um jogador excepcional, um dos poucos cabeceadores que procuravam a bola. Eu já sabia onde ele gostava do lançamento: na esquerda, atrás do beque central. Eu centrava, ele pulava e cumprimentava, fulminava."

Ainda faltava alguma coisa. O Corinthians não ganhava nenhum título relevante desde 1941, algo que só mudaria com a chegada de garotos buscados no tradicional time de várzea do Maria Zélia, especialmente Roberto Belangero e Luizinho. Então, a partir de 1950 e até 1955, o clube viveu seu período mais vitorioso.

Em uma época na qual não existia uma competição nacional nem torneios internacionais periódicos estabelecidos, o time alvinegro alcançou três vezes seu principal objetivo, o Campeonato Paulista (1951, 1952 e 1954). Ganhou também três vezes a disputa interestadual do Rio-São Paulo, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1950, 1953 e 1954).

A equipe ainda levou a Pequena Taça do Mundo (1953) e o Torneio Internacional Charles Miller (1955), derrotando rivais como Barcelona, Roma e Benfica. Foi um ciclo fantástico de conquistas, possível a partir do momento em que o habilidoso, pequenino e impetuoso Luizinho se posicionou na meia direita, entre Cláudio e Baltazar.

"Eu vinha com a bola dominada lá de trás, dava um toque para o Luizinho. O Luizinho já soltava a bola na frente, no meu pé. E com a bola no pé... Bem, era tudo mais fácil", recordou Cláudio.

"Ele estava numa fase ruim", disse Luizinho, à Folha, em 1974, rememorando o começo da parceria. "Estava faltando um meia para completar sua arte. Nós dois iniciamos as tabelas, coisa que antes da gente ninguém tinha feito."

Exagero, de certo, do camisa 8. Mas o camisa 7 era mesmo afeito ao jogo coletivo. Luizinho seria menos Luizinho sem Cláudio. E Baltazar seria bem menos Baltazar.

Houvesse nos anos 50 a contabilidade das assistências e a valorização estatística dos passes para gol, o Gerente de 1,62 m seria ainda mais aclamado. Ele era um preparador de jogadas, não propriamente um finalizador, o que torna ainda mais impressionante sua liderança na artilharia histórica do Corinthians.

Humilde, Cláudio sempre atribuiu à longevidade no clube essa posição na lista de goleadores. Contribuiu para o número excepcional de bolas na rede a qualidade nas bolas paradas.

Seu gol favorito foi o que decidiu o Torneio Charles Miller, uma batida de falta que iludiu Costa Pereira, goleiro do Benfica (considerado o melhor de todos os tempos da seleção portuguesa). O efeito da bola atordoou o arqueiro nascido em Moçambique, que, consta na lenda alvinegra, exclamou: "Foi de curvita, ó, pá!".

Capitão alvinegro, líder extremamente respeitado --o apelido não era aleatório-- e jogador fora de série, o Gerente não jogou uma Copa do Mundo. Disputou 12 partidas pela seleção brasileira e fez cinco gols, muito pouco para alguém de sua (baixa e) enorme estatura. "Eu sonhava estourar na Copa de 50", admitiu, em entrevista de 1983 à revista Placar.

Luizinho também não jogou o Mundial em 1954, Neto não disputou o torneio em 1990, Marcelinho não foi chamado em 1998.

A torcida do Corinthians nunca entendeu as ausências de difícil explicação, mas também nunca deu tanto valor aos feitos em verde e amarelo. O que sempre lhe importou foi a produção em preto e branco, e é muito difícil cobrar produção maior do que a de Cláudio nessas cores.

São incríveis 305 gols. Que ficam bem longe de resumir sua contribuição.

Cláudio é o maior artilheiro da história do Corinthians. Morreu, em 2000, em sua Santos, sem demonstrar nenhuma arrogância a respeito do feito. O que lhe causava orgulho mesmo era encontrar algum alvinegro que lhe perguntasse: "Você é corinthiano, Cláudio?".

A indagação não era inteiramente descabida se levado em conta que foram vestidas as camisas de Palmeiras, São Paulo e Santos. Então, Cláudio explicava que amava o Corinthians por causa dos torcedores corinthianos.

"E você? Você é corinthiano?", respondia, devolvendo a pergunta. "Então, eu também sou. Sou. Porque você é."