Claudemir Scalone
Devaneio
Pentacampeão, pentacampeão..., é o grito que se ouve pelas ruas de norte a sul do Brasil, minutos após a Seleção Brasileira ter vencido, de virada, a final da Copa da França diante da, até então, invicta Alemanha por 2 a 1.
Em Paris, os jogadores dão a tradicional volta olímpica no Estádio Saint-Denis e festejam o meia Raí, autor do gol da vitória aos 45 minutos do segundo tempo. Logo ele, que teve pálida participação na fase inicial, onde atuou somente no vitória sobre a Noruega (1 a 0), e não foi mais escalado por Zagallo.
Raí só ganhou sua chance aos 40 minutos do segundo tempo, por influência do coordenador Zico. O meia entrou na equipe justamente no momento em que o atacante Edmundo acabara de ser expulso. O Animal, que tinha substituído Juninho no intervalo, havia criado boas jogadas, mas foi expulso depois de esmurrar um jogador alemão.
Raí substituiu Romário, autor do gol de empate após jogada criada por Ronaldinho, que driblou quatro adversários. Zagallo relutou em fazer a substituição. Só foi convencido depois que o preparador físico Paulo Paixão constatou que o baixinho não teria gás para suportar a prorrogação que se aproximava. O meia são-paulino, que já havia brilhado na final do Paulistão ao levar o seu clube ao título, deu pouco mais do que oito toques na bola. Mas conferiu, de cabeça, um cruzamento do lateral Roberto Carlos e deu a vitória ao Brasil.
Enquanto o time festejava em campo, Zagallo descia para os vestiários cercado pela imprensa: E aí, Zagallo, agora você se aposenta?, perguntavam. Com lágrimas nos olhos e o rosto em chamas, o Lobo disparou: Este título é para vocês que não me engoliam. Consegui tudo o queria e vou me aposentar sim. Agora é a vez do Paulo, um técnico competente e vitorioso que, com certeza, dará muitos títulos ao futebol brasileiro. Amanhã, o Ricardo Teixeira vai anunciá-lo como novo técnico da Seleção.
Os repórteres continuavam o interrogatório: Zagallo, você acha que o Zico deve ser o coordenador do Autuori? Zagallo olhou surpreso para o repórter e respondeu: Que Autuori, o quê. Eu tô falando é do meu garoto, o Paulo Zagallo, pô!. Paulinho, como é conhecido o filho do Lobo, assumiu o modesto Madureira, do subúrbio carioca, no segundo turno e levou a equipe ao título estadual para orgulho de Zagallo.
De repente, ouve-se um apito e vaias. O Zagallo, acorda, homem, cutucou o coordenador Zico. Não vê que o jogo já acabou. E o velho Lobo, para sua decepção, é sacudido de um sonho para cair no real pesadelo do melancólico empate de 0 a 0 com a Escócia, na estréia do Brasil na Copa do Mundo.





