Claudemir Scalone

Reação à Lei Pelé
A enérgica reação dos dirigentes de clubes e deputados federais - estes representados na figura grotesta de Eurico Miranda, vice de futebol do Vasco -, à aprovação da Lei Pelé revela outra faceta desse País recheado de endemias. Não padecemos apenas da corrupção, como atestou o Departamento de Comércio dos Estados Unidos em relatório recente divulgado às vésperas da visita do presidente americano, Bill Clinton, ao Brasil.
A história mostra que Brasil sofre de outras doenças incuráveis. Somos um país resistente a certas mudanças. O exemplo mais claro dessa endemia quanto a transformações deu-se no século passado com a abolição da escravidão, algo próximo do que vivem hoje os jogadores de futebol com a vigência da Lei do Passe.
Como o escravo, o jogador não é dono do próprio destino. É sujeito às determinações do clube e quando entra em choque com os cartolas pode se dar mal. Fica encostado no clube sem direito de trabalhar. O caso envolvendo o volante Gallo e o Guarani é um bom exemplo disto. O jogador enfrentou longa batalha judicial para poder defender o São Paulo.
Os proprietários de escravos - hoje os cartolas dos clubes - fizeram de tudo para não se verem ‘‘livres’’ da exploração do trabalho alheio. Enquanto a sociedade exigia o fim da escravidão, eles adotavam práticas para prorrogá-la. Daí bolaram a Lei do Ventre Livre (1871), que dava liberdade aos filhos de escravos, e depois a Lei do Sexagenário (1885), que dava alforria aos negros com mais de 65 anos. Só três anos mais tarde (1888) foi assinada a abolição.
A Lei Zico, aprovada em 1993, garante o passe livre ao jogador com 32 anos de idade e com dez anos consecutivos num mesmo clube. É uma espécie de Lei do Sexagenário. Depois de explorar a força de trabalho do atleta por mais de uma década, dá-lhe o passe quase ao final de carreira.
Assim, não é espantoso ver Eurico Miranda defendendo prazo maior para que os clubes se adaptem à adoção do passe livre aos jogadores. Pede carência. Quer ganhar prazo para ainda faturar com as transações obscuras no futebol. Continua sonhando com o lucro fácil, à margem do fisco, dos negócios milionários proporcionados com a venda de craques ao exterior.
A Lei Pelé pode não ser a solução definitiva para moralizar o futebol, mas é o início de um processo que pode sanear o esporte. A punição judicial a quem administra mal os clubes é um superavanço.
Se a Lei Pelé estivesse em voga, boa parte dos dirigentes que quebraram o Londrina estaria prestando contas à Justiça por seus atos e o clube, com certeza, não estaria vivendo esse círculo vicioso de incerteza a cada fim de temporada.

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