Desabafo anônimo
O artigo ‘‘Londrina não tem torcida’’, que escrevi no último sábado, inspirou um anônimo e apaixonado torcedor do Londrina a enviar um longo desabafo via fax. Apesar do seu anonimato, decidi expor ao leitor da Folha parte do ‘‘depoimento’’.
Devo ressaltar antes que a ‘‘tese’’ exposta aqui não é nova, claro. Há dois fatos que podem explicar o ‘‘desinteresse’’ do torcedor para com o Londrina. Primeiro, os dirigentes que lucram com a venda de jogadores ou utilizam o clube como trampolim à carreira política. Aliado a isto, o Londrina não segura seus ídolos e, em consequência, afasta os torcedores do estádio. Depois, algumas emissoras de rádio que chegam a transmitir jogos das equipes paulistas paralelos às partidas do Londrina. Não se pensa em incentivar e criar o hábito das crianças em frequentar o estádio. Pior. Às vezes, coloca-se obstáculos à presença delas.
Bem, vamos ao relato do leitor-anônimo. Carioca de nascimento e filho de rubro-negro (Flamengo), ele conta que se mudou para a cidade na década de 60 e iniciou sua paixão pelo Tubarão em 1974. Em 1985, ‘‘depois de constatar que a torcida do Londrina (se que se pode usar este termo), era uma m..., não empurrava o time e só sabia comer amendoim, tomar cerveja e xingar a mãe do juiz’’ decidiu com os amigos fundar a Torcida Jovem do Londrina. Na estréia da organizada, decepção: ‘‘Os próprios ‘torcedores’ do Londrina queimaram nossa faixa e brigaram conosco, porque estávamos atrapalhando’’.
Um ano mais tarde, o anônimo torcedor ingressou num curso de graduação na PUC do Rio, mas sempre telefonava aos amigos para ter notícias do Tubarão. Em 1994, retornou à cidade e para seu espanto, percebeu que a ‘‘torcida (ou espectadores) do LEC diminuiu e piorou muito - permita-me. O Tubarão tem torcedores sim, considero-me um deles, entre os mais ou menos 1.500 que realmente amam e têm coragem de torcer pelo Londrina’’.
O apaixonado torcedor tem uma explicação para a falta de amor ao clube. Segundo ele, ‘‘o londrinense (a imensa maioria) tem vergonha de dizer que torce pelo Tubarão (deve ter vergonha de assumir que mora em Londrina também), é vítima de gozações dos próprios londrinenses. Mas aqui é que está o ridículo disso tudo. O mesmo londrinense que adora falar que o Londrina não é time, que é uma m..., bate no peito com força para dizer que é tricolor, corintiano, flamenguista... Isto é a coisa mais estúpida que se pode constatar’’, critica.
Do longo desabafo, escolhi este outro trecho. ‘‘Tragédia maior, é ver o londrinense-ridículo, que tem vergonha de sua realidade, tem vergonha de sua origem pé-vermelha, não possui personalidade própria e suficiente para amar o Tubarão, sim pois é preciso ter muita dignidade e personalidade, principalmente, nesta cidade, para gritar: É TUBARÃO!!’’

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