Claudemir Scalone
Claudemir Scalone
Londrina não tem torcida
Vou desenvolver aqui uma tese sobre a torcida do Londrina que tenho discutido com alguns colegas de editoria da Folha. Muita coisa já foi dita sobre ela (torcida). A mais célebre, talvez, tenha sido a do falecido Heleno Nunes, presidente da ex-CBD (Confederação Brasileira de Desportos). Ao assistir um dos jogos pelo Campeonato Nacional de 1977, quando o Tubarão cumpriu campanha magnífica papando Corinthians, Santos, Flamengo e Vasco, Nunes disse que o Londrina não tinha torcida e sim espectadores. Nunes dizia que os torcedores só vibravam com cobranças de falta e escanteio. No resto da partida, ficavam de boca fechada. Passados todos estes anos, a constatação continua válida.
A boa campanha do clube na Série B deste ano (classificado com duas rodadas de antecedência) não foi suficiente para motivar o torcedor a empurrar o Londrina freneticamente como faz, por exemplo, a torcida do Atlético Paranaense. O torcedor londrinense mais reclamou do que incentivou o Tubarão.
Acredito que a qualidade do futebol apresentado pelo Londrina não deveria ser desculpa para justificar uma relação tão fria da torcida com o time. Cabe à imprensa analisar e criticar o perfil tático e individual da equipe.
Ao torcedor fiel e apaixonado, capaz de qualquer loucura por seu clube, pouco importa a maneira como a equipe joga. O que vale é o time vencer e atingir o seu objetivo. As torcidas de Flamengo, Corinthians e Palmeiras cobram (vaiam, também) os seus times, mas entoam cânticos de incentivo durante os jogos.
Aqui é diferente exatamente porque o Londrina não é o time do coração do torcedor. O londrinense tem antes um comprimosso com times paulistas ou cariocas. São torcedores-adotivos. O Tubarão é seu time reserva. Serve de consolo - se está em boa fase - quando o time preferido perde.
Quando vai ao estádio do Café, esse torcedor quer ver o Londrina jogando igual a Santos, Palmeiras e Corinthians. Daí, descarrega toda sua frustração xingando o time local e jurando nunca mais botar os pés no estádio.
Já passou da hora de os dirigentes do Londrina se preocuparem com a formação de seu torcedor. Somente um torcedor puro, que tenha o Londrina como primeiro time, poderá ir ao estádio e demonstrar toda a sua paixão pelo clube gritando do começo ao fim do jogo. É preciso investir nas crianças. Idéias como aquela de levar estudantes ao estádio, a exemplo do jogo diante do Joinville, é válida. Quanto ao torcedor-adotivo, espera-se que tenha mais paciência e entenda que o sucesso do Londrina poderá dar-lhe a chance ver o seu time querido, no estádio do Café, no Brasileirão-98.





