Deteriora-se, no centro de Mandaguari, o Estádio ''João Paulino Vieira Filho'', um dos marcos da ascensão do futebol profissional no Norte do Paraná, que teve o seu primeiro campeonato regional coordenado pela Federação Paranaense em 1958. Participaram times de 12 cidades, das quais hoje apenas três (Apucarana, Arapongas e Rolândia) têm representantes no campeonato estadual; nas demais, à exceção de Londrina, parece impossível o profissionalismo emergir do passado.
A FOLHA publica a partir de hoje, aos domingos, uma série de reportagens expondo opiniões, interpretações e fatos decorrentes de um ''vazio'' que parece absurdo, por ocorrer no proclamado ''país do futebol''.
Campeão norte-paranaense em 1960 e vice-campeão estadual em 1961, o Mandaguari Esporte Clube (MEC) começou a declinar em 1967. Tentativas na década seguinte não conseguiram reerguê-lo e o ''Leão do Norte'', que vestia camisa vermelho-cereja, fechou o próprio ciclo, que era inerente à cafeicultura. Na FOLHA de 28 de dezembro de 1976 há uma síntese nostálgica: ''O ciclo do café passou, o idealismo entrou de férias e já não existe mais a coragem e a decisão dos pioneiros. O leão está descansando, deixou de rugir''.
''Temos de preservar o passado'', afirma o diretor de esportes da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Saint Clair Soares Lopes, referindo-se ao estádio, mas também com a intenção de transformá-lo em centro esportivo. Neste caso, somente possível se a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, proprietária do imóvel, transferi-lo à Prefeitura, por enquanto uma hipótese.
Não se cogita a volta do futebol remunerado, que esbarra no próprio profissionalismo. ''Está inflacionado demais'', analisa Valentim Guerino, o Valente, quarto zagueiro e um dos ídolos do MEC no período 1955-1962. Para Saint Clair, sem o poder público e contribuições das empresas locais ''é inviável'' o retorno do futebol. E o que se sabe é que a Prefeitura não tem condições orçamentárias, até por imposições da Lei de Responsabilidade Fiscal, e os empresários evitam contribuir mesmo que lhes seja permitido abater no imposto de renda, por entenderem que se trata de ''uma malha fina''.
É fato histórico que, no passado, diretores iam a zona rural e voltavam ''com um caminhão lotado de sacos de café'', contribuição dos sitiantes ao clube, enquanto na cidade havia a oferta de empregos para os atletas, que permitiram a muitos a aposentadoria. ''Compradores de café e gerentes de banco eram os que mais ajudavam o time; a Prefeitura dava pouco, só aquela verbinha. Eu era tesoureiro da Prefeitura'', recorda Valente, que se aposentou no emprego.
Procedente do Estado de São Paulo, onde havia integrado o Oriente, de Ourinhos, e o Marília Esporte Clube, ele tinha 27 anos ao desembarcar em Mandaguari, em 1955. ''Vim contratado pelo time e com emprego na Prefeitura; não dava para ficar rico, mas era um bom dinheiro.''
Arlindo, o mais veloz
Valente recorda que, ao chegar, o Arlindo já estava no time. ''O MEC acabou e o Arlindo ficou, mora numa casa dentro do estádio até hoje'', observa. E na cidade, dizem que ele tem direito ao usucapião urbano.''
Arlindo Caetano da Silva, pernambucano de Bom Conselho, exibe invejável equilíbrio na bicicleta e parece não ter os 80 anos. ''Batia bola desde quando era operário numa fábrica de tecidos dos Lundgren (Casas Pernambucanas)''; nos primeiros anos 50, em busca de trabalho, passa pelo Estado de São Paulo e chega a Bandeirantes, Norte Velho paranaense, onde começa a jogar profissionalmente, pelo Guarani, aos 22 anos. Em 1955, recomendado por um ''olheiro'', transfere-se para o MEC e ganha um emprego no Banco Comercial do Paraná, sob a gerência de Caetano Soares, diretor do time.
Parece lenda ou ''causo inventado'', mas o ponta direita mais veloz do país talvez fosse Arlindo, segundo comentaristas no Bar do Careca. ''Diziam que eu corria mais do que veado'', rememora o próprio Arlindo. Vez ou outra, ''batia o escanteio, corria para a área e fazia o gol''. Quem presencia a narrativa é Fioravante Victório Ubialli, o Fiori, que foi um dos goleiros do MEC. Atualmente morando em Campo Mourão, sempre que passa por Mandaguari, comparece ao Bar do Careca para rememorar.

mockup