A final do Campeonato Brasileiro entre Grêmio e Portuguesa não poderia ser mais saborosa. Tanto, que o confronto de hoje à tarde, no Estádio Olímpico, em Porto Alegre, extrapolou a área esportiva, invadiu a cozinha e colocou o estômago dos torcedores na marca do pênalti. Mais do que o encontro de duas culturas, o tira-teima entre gaúchos e lusitanos é a promoção mais feliz e original da temporada. E se dentro de campo você já fez sua opção, à mesa, pode-se muito bem ficar com o melhor dos dois mundos, numa mistura original e bem brasileira.
Na noite da última quarta-feira, data do primeiro jogo da decisão, dois mestres-cucas, um gremista e outro lusitano, aceitaram o convite da Folha para antecipar a suculenta decisão. A Portuguesa foi mais feliz no gramado, mas o encontro teve sabor de vitória para ambos.
Manuel da Silva Dias, 58 anos, natural de Leiria, no meio do caminho entre Lisboa e Coimbra, é um torcedor confesso do Benfica e extremamente fiel as suas origens. ‘‘Não discuto esporte, religião e nem política. Mas quando se trata da Lusa, não tem jeito, o sangue português fala mais alto e o coração bate mais forte. Embora não seja um fanático por futebol, estou muito contente em ver a Portuguesa na final deste campeonato’’.
Ele desembarcou no Brasil no dia 2 de junho de 1987. Cinco dias depois, sem conseguir encontrar em São Paulo qualquer coisa que o fizesse lembrar daquele país-irmão que conhecera nas páginas da Enciclopédia Luso-Brasileira, decidiu procurar um amigo, seu xará, consul honorário de Portugal em Londrina, Manuel Alho da Silva, dono da Construtora Brasília.
Foi bem recebido pelo patrício, que lhe recomendou duas coisas importantíssimas: a primeira, ter consciência da terra que pisava; e a segunda, não se tornar empregado de ninguém. Juntando as economias trazidas da ‘terrinha’, Manuel comprou o Restaurante Portugália, no mezzanino do aeroporto. Ficou lá até 89, quando retornou para Portugal para rever a família. Mas a aventura brasileira ainda não havia terminado. Em maio de 94, estava novamente em Londrina, com o Churrasquinho Português, no trevo das avenidas JK e Santos Dumont. Há uma semana e meia, Manuel comanda o jantar no Restaurante Por Quilo.
Gaúcho de Venâncio Aires, Ênio Sehn, 54 anos, aposta na tradição vencedora do tricolor. Em Londrina desde 1967, o dono do Restaurante Dá Licença divide sua torcida entre o Grêmio e o Tubarão. ‘‘Precisamos vencer no Olímpico, nem que seja de meio a zero. A Portuguesa se mostrou um adversário à altura e precisa ser respeitada. Mas o Grêmio é um time de chegada, tem um ótimo plantel e é dirigido por um dos três melhores técnicos do Brasil’’.
Ênio não poupa elogios ao treinador e amigo particular, Luiz Felipe Scolari. ‘‘Admiro muito sua raça, desde os tempos de jogador. Além de grande estrategista, ele tem, como costumam dizer, a equipe na palma da mão. É competente, responsável, daqueles que veste a camisa do time. E a equipe é o retrato dele’’.
Por fim, ele lamentou a falta de sorte do Londrina, que fracassou na ascensão para a Série A do Campeonato Brasileiro. ‘‘Faltou profissionalismo ao presidente Marcelo Caldarelli. Mas é preciso reconhecer o trabalho da SAL. Se não fossem eles, seríamos rebaixados para a Série C. É preciso também reeducar os torcedores londrinense, principalmente as crianças, para que eles possam torcer mais pelo time da cidade’’.

mockup