Mundo da Bola, uma nova seção da FOLHA, vai contar, sempre aos domingos, como vivem os jogadores brasileiros, principalmente os paranaenses, pelo mundo afora. Para abrir a série, o londrinense Rafinha, destaque do Schalke 04,
conta como faz para se divertir na fria Alemanha

Um bom churrasco ao som de um pagode. Esses são os ingredientes que embalam a boa fase do londrinense Rafinha, lateral-direito do Schalke 04 e da seleção brasileira, na Alemanha. Os temperos brasileiros fazem com que ele esqueça a saudade do Brasil e se concentre em jogar bem.

Em entrevista exclusiva à FOLHA, Rafinha, 22 anos, conta como é a vida na fria Alemanha. Fria no quesito temperatura e também no quesito relação interpessoal. ''Tudo tem seu preço'', ponderou.

Há quase três anos no Schalke 04, ele está totalmente adaptado ao futebol alemão, ao clima e à cultura. Mas conta que precisa sempre ter algo que lembre o Brasil. ''Sempre fazemos um churrasco, reunimos os brasileiros, com um pagode para dar uma descontraída'', contou o lateral, que sempre leva alguém de Londrina para passar uma temporada em Gelsenkirchen, cidade de 200 mil habitantes no Norte da Alemanha, onde mora.

Rafinha defendeu Juventus-SP, PSTC e Londrina, durante as categorias de base, mas despontou no Coritiba, que o vendeu para o Schalke 04 em agosto de 2005, por 5 milhões de euros. Vice-campeão alemão na temporada passada, Rafinha vive o melhor momento da carreira. Seu time está nas quartas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, onde vai encarar o poderoso Barcelona. Ele esteve nas duas últimas convocações do técico Dunga para a seleção principal e sonha em ficar marcado por conquistar a medalha de ouro olímpica, na China.

De família humilde, Rafinha é o caçula entre sete filhos. ''Sou o xodozinho da casa'', afirmou. Confira o bate-papo com o jogador:

Momento da carreira
''Melhor impossível. É meu terceiro ano na Alemanha e entrei com o pé direito. Tive minha segunda convocação e estou muito feliz. Estamos nas quartas-de-fnal da Liga dos Campeões e se melhorar estraga. No Campeonato Alemão, estamos há quatro pontos do vice-líder, que classifica direto para a Liga. Estou sempre jogando, não estou me machucando, não fico no banco de reservas e no ano inteiro fiquei só duas partidas fora por causa de cartão amarelo''.

Liga dos Campeões

''Todo time entra numa competição como essa para ir o mais longe possível e com a gente não é diferente. Mas sabíamos que era difícil. Nosso grupo era considerado o da morte. Os candidatos a classificar eram Valência e Chelsea. Pelas beiradas, conseguimos a classificação. Aí veio o Porto, que já foi campeão europeu e tem tradição e ficou pelo caminho. Agora o povo está vendo que nosso time tem qualidade e tem tudo para ir mais longe''.

Enfrentar o Barcelona

''É uma maravilha. Os holofotes estarão virados para a gente. O Barcelona é um dos melhores times do mundo, foi campeão recentemente e a gente já sabe que vai ser muito difícil. Eles não têm três ou quatro jogadores bons, mas um plantel de muita qualidade, com atletas que jogariam em qualquer time do mundo. Vai ser bom, porque nosso time também está preparado e quem vai ganhar com isso vai ser o público. Será um ótimo jogo, um show à parte''.

Ponto forte do Schalke

''A nossa bola parada é muito forte. Temos jogadores de grande qualidade na bola aérea, como o (Kevin) Kuranyi (brasileiro naturalizado alemão), que é um jogador que faz muitos gols de cabeça. A jogada aérea é muito importante para o nosso time tanto na Liga como no Alemão''.

Primeira convocação

''Ah cara, é inexplicável. A hora que você escuta seu nome ali na lista dos 22... Nossa. É seleção principal, não é Sub-20, Sub-17, é a principal. São os melhores jogadores do mundo, só fera e você está ali no meio. Todo jogador brasileiro tem esse sonho e graças a Deus tive a oportunidade. Um sentimento inexplicável. A ficha só cai quando volta da seleção''.

Recepção na seleção

''Os mais experientes sempre procuram passar tranquilidade, porque a primeira vez é difícil mesmo. O jogador fica acanhado. Mas os mais velhos dão força, orientam e deixam você tranquilo''.

Seleção olímpica

''Tem muita coisa ainda para acontecer até a Olimpíada. Estou feliz por ter sido convocado de novo para a seleção principal, mas para a Olimpíada tem muito água para rolar, tem muitos jogadores de qualidade mostrando seu talento, mostrando condição de estar no grupo. Mas eu estou firme, com o pensamento voltado para a Olimpíada, que é o meu maior objetivo esse ano. Essas convocações para a seleção principal ajudam bastante, mas tudo vai depender do nosso trabalho aqui no clube. Tenho que jogar e aparecer''.

Pressão pelo ouro

''O técnico Dunga já frisou que a pressão vai existir. É o único título que o Brasil não têm. Sei que terão outras equipes de muita qualidade, seleções européias, que estarão muito forte também, mas o grupo que for fará o máximo para trazer esse título inédito, que vai marcar a carreira de todo mundo que estiver lá''.

Adversários

''Não é só a Argentina. A gente que está aqui na Europa tem acompanhado as seleções locais, como Sérvia e Montengro, Itália, Espanha, Portugal, Inglaterra. São equipes muito fortes e não é só o Brasil que está com esse foco de ganhar a Olimpíada. Tem que ir preparado, motivado e concentrado pra trazer essa medalha de ouro''.

Morar sozinho

'' Eu moro sozinho, mas sempre tem alguém de Londrina aqui. Família, amigos e a namorada, que é de Curitiba. É difícil ficar sozinho. A Alemanha é um país totalmente diferente do Brasil. O idioma, o clima, a cultura. No primeiro ano a gente sofre bastante, tem dificuldade, não sabe falar a língua local, não conhece nada. O clima também não ajuda, faz muito frio. Mas tudo tem um preço. Agora estou adaptado, estou bem, podendo desfrutar. Tem muitas coisas legais aqui para conhecer''.

Viagens

''A cidade (Gelsenkirchen) fica bem pertinho de Amsterdã, Paris e Bruxelas. Quando a minha família está aqui sempre procuro dar uma volta para distrair. Vamos de carro. Sempre trago os amigos daí de Londrina, o povo dos Cinco Conjuntos, onde eu morava, para passear aqui. Para o pessoal é tudo novo. Levo eles para conhecerem e repartir comigo esse bom momento que estou vivendo. Tive muitas pessoas que me ajudaram, deram força, apoio. Tem duas pessoas aí em Londrina que sou muito grato, que é o Nei (Inácio) do vôlei e o Willians, que foi jogador do Coritiba. Tem outras pessoas também e a gente não pode esquecer. Quando estava na fase ruim eles estavam do meu lado e a agora, que a fase está boa, tenho que retribuir''.

Cultura

''Foi difícil adaptar. Os alemães são difíceis de conviver. O pessoal não sai de casa, é muito fechado. A diversão deles é dar uma volta no parque no domingo. Você nao vê ninguém na rua, mas conheço bastante pessoas fora do futebol. Tem muito gente de uma idade mais elevada. O idioma alemão também é difícil de aprender. Já são três anos e ainda está difícil. Entendo e falo bem, mas tem hora que não dá para entender nada''.

No restaurante

''Quando ía ao restaurante, no começo, pedia os pratos por mímica. Não sabia falar nada. Às vezes queria comer uma carne e não sabia falar. Então, fazia o barulho da vaca (risos)''.

Comida

''Sempre como comida brasileira. Minha mãe vem para cá e traz muita coisa daí do Brasil. Não passo falta do feijãozinho. Sempre fazemos churrasco, reunimos os brasileiros. Sempre fazemos um churrasco com pagode para dar uma descontraída''.

Brasileiros

''Tem outros três brasileiros no Schalke: o Bordon, o Zé Roberto, que era do Botafogo e o Kuranyi, que se naturalizou alemão. O relacinamento nosso é ótimo. Sou o único solteiro, mas sempre nos reunimos na casa de um ou de outro para fazer um jantar, uma confraternização''.

Cerveja

''É bom demais. A melhor coisa que tem aqui é a cerveja. Os alemães tomam quente, mas a gente toma gelada. Os alemães do time preferem tomar cerveja do que água. Acaba o jogo e todos tomam cerveja no vestiário. Tem uma cerveja escura aqui, que tomam até no vestiário, às vezes no intervalo dos jogos. É o costume. Fiquei espantado quando cheguei aqui''.

Baladas

''Aqui (na Alemanha) não tem o que eu gosto, então não vou para lugar nenhum. Fico na minha casa, faço meu pagode aqui, tomo minha cerveja com meus amigos. Meu negócio é samba e pagode. Quando meu irmão vem, o Marquinhos do Pandeiro (do grupo Quem Dera), ele traz os instrumentos e fazemos um pagode''.

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