Castelo Eldorado: o início e como está hoje
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de março de 2010
Alberto Macedo<br> Especial para a Folha 
O ano era de 1976. Enquanto o presidente Ernesto Geisel cassava vários deputados com base no Ato Institucional de Número 5 (AI-5); a equipe Copersucar-Fittipaldi fazia sua estréia na Fórmula 1 no GP do Brasil, em São Paulo; o jornal O Estado de São Paulo publicava série sobre mordomias no governo; Juscelino Kubitschek morria em acidente de carro na via Dutra; aqui na região de Londrina, mais precisamente na cidade de Marilândia do Sul, um evento inédito estava para acontecer.
Construído na década de 1940, o Castelo Eldorado viria a ser conhecido nacionalmente, não só pela sua beleza impressionante, mas pelo barulho das motos. Graças ao idealismo e coragem do londrinense Eurivaldo Escudero, o Vado, toda uma região iria ver de perto grandes pilotos da época e sua motos voadoras, dando espetáculo em uma pista montada quase em frente ao Castelo, que se localiza em uma mata fechada. Um fato até então inimaginável para muitos.
Naquela época acompanhávamos o motocross através de jornais e revistas. Não se fazia um evento deste no meio do mato. O Vado encarou o desafio e o resultado foi um sucesso total, conta Laerte Pradal, o Paquinha, 54, presidente do Trail Club de Londrina.
Este foi o primeiro evento de uma série. O pessoal trazia barracas e debaixo das árvores se formava uma grande camping. De sexta até domingo, que era o dia das provas, o local parecia que estava sediando um concerto de rock. Vinham pessoas de tudo quanto era lugar. E eles conviviam em plena harmonia com o pessoal local, da organização e os pilotos, atesta Chafic Kallas, do Londrina Moto Clube do Café, que também trabalhou junto com Vado na organização de várias provas.
Vado convidou o piloto Nivanor Bernardi, catarinense radicado em Curitiba, na época um dos melhores do Brasil, para ajudar na orientação e na construção da pista de motocross. Na época não tínhamos noção de como fazer uma pista, até porque não existiam pilotos de motocross na região. Foi a partir deste evento que começou o interesse pela modalidade, observa Paquinha. O Nivanor sabia como fazer uma pista, os saltos, e assim foi feito, no gramado em torno do Castelo Eldorado, complementa. Nesta prova que inaugurou a pista do Castelo, a vitória ficou com Nivanor Bernardi, que morreu em 25 de abril de 1995, de insuficiência hepática.
De 1975 a 1992 o Castelo Eldorado sediou um grande número de provas de nível estadual e nacional, que contaram com a presença dos maiores pilotos do Brasil. Além de Nivanor, vieram Pedro Bernardo Raimundo, o Moronguinho; Roberto Boettcher, Álvaro Cândido Filho, o Paraguaio; Ylton Veloso Cavalcante, o Paraibinha, entre outros. Naquela época Nivanor, Boettcher e Moronguinho formavam o triunvirato de ouro do motocross nacional, tanto que eram conhecidos como os Três Mosqueteiros.
Logo em seguida se juntaria a eles o Paraguaio. Depois da presença destas feras o motocross virou febre. O Castelo se tornou uma grande escola de pilotos, muitos deles ainda em ação até hoje, relembra Paquinha.
Com o boom de provas em Londrina e várias cidades do Estado, o Castelo Eldorado viria a sediar um evento novamente só em 13 setembro de 1998. Uma nova e moderna pista foi construída pelo especialista Sebastião Hot, o Tiãozinho, para sediar o 23º Grande Prêmio do Castelo Eldorado, comemorativo aos 50 anos da Folha de Londrina. Mais de 7 mil pessoas estiveram no local, em evento que reuniu pilotos como Eduardo Saçaki, Milton Chumbinho Becker, Elton Becker, Marlon Olsen, Nico Rocha, entre outros.
A última prova realizada no local, com organização de Chafic Kallas, foi em 7 de novembro de 2004, o Grande Prêmio Castelo Eldorado 30 Anos, etapa válida pelo Campeonato Brasileiro e que teve a presença dos pilotos Saçaki, Jorge Balbi, Chumbinho Becker, Paulo Stédile, Massoud Nassar, entre outros.
Vado Escudero
O motocross londrinense e paranaense talvez não seria o que é hoje sem a coragem, liderança e iniciativa de Vado Escudero. Vado era empresário artístico em Londrina, trazendo grandes shows com os de Rita Lee, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Zezé Motta, entre tantos.
Ele se enveredou pelo motocross, até então pouco conhecido em Londrina e região, e começou aí um novo marco na modalidade. Foi ele quem realizou a primeira prova no Castelo Eldorado. Naquela época (1975), o local era pouco conhecido. Depois que ele realizou a primeira e muitas outras provas, ele tornou Marilândia do Sul e o Castelo Eldorado conhecidos em todo o Brasil, diz Silvia Helena Escudero, sua irmã.
Depois do Castelo Eldorado, Vado resolveu fazer corridas em Londrina, como o Supercross no VGD, no Estádio do Café, além de trazer o Hollywood Motocross e pilotos norte-americanos. Vado morreu em acidente de moto, em Tamarana, em 1984. Ele tinha 30 anos.
Com a morte de Vado o motocros continuou a ter grandes eventos, com Chafic Kallas e Ruy Escudero, irmão de Vado. Das provas que fizemos juntos no Castelo, a que teve mais público reuniu cerca de 13 mil pessoas, do Hollywood Motocross, diz Kallas, que é cirurgião plástico em Londrina. Já Ruy Escudero faleceu em 2005, aos 45 anos, e residia em Sinop (MT).
A situação do castelo
Depois do último evento, em 2004, o Castelo Eldorado não sediou nenhuma prova de motocross. O local caiu um pouco no esquecimento. Os que ainda se lembram das grandes corridas estão hoje na faixa dos 50 anos, conta Silvia Helena Escudero, que administra o local juntamente com sua mãe, Célia Palhares, e seu padastro, Álvaro Pereira Salles.
Álvaro Salles adquiriu 40 alqueires de terra, incluindo o Castelo Eldorado, em 1965. Hoje são apenas 12 alqueires, diz Silvia Helena. Atualmente a família mantém o local aberto para visitação. O Castelo está sem móveis, mas mantemos o local limpo, os jardins arrumados. A represa é grande e é um local que está liberado para pesca e ainda existem alguns chalés para locação, conta Silvia Helena.
Já o Castelo propriamente dito continua recebendo visitas, pois mantém sua imponência e deslumbra a quem vem pela primeira vez. Hoje o local serve mais para ensaios fotográficos e catálogos de moda. Há muitos pedidos de aluguel para festas, mas a gente não aceita, para preservar o patrimônio, observa Silvia Helena.
O local onde ficava a pista de motocross ainda existe, totalmente gramado. Silvia não descarta no futuro voltar a alugar o local para eventos da modalidade. Ultimamente não tivemos nenhuma procura para provas de motos. Nossa meta a curto prazo é uma reforma geral no local para o segundo semestre do ano, pois temos algumas ideias, mas ainda não podemos divulgá-las, afirma.
Para quem desejar visitar o Castelo Eldorado, o preço é de R$ 5,00 para entrar na propriedade e mais R$ 3,00 para visitação no interior do castelo. O dinheiro arrecadado é destinado a pagar funcionários que cuidam da limpeza do local e manutenção do lago.
Maiores informações sobre o Castelo Eldorado podem ser obtidas nos telefones: (43) 9936-9987, com Célia Palhares, e (43) 8811-4963, com Silvia Helena Escudero.


